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4 de janeiro de 2018

Braganza Hotel

O “Braganza Hotel”, localizado na, Rua do Ferragial de Cima, (actual Rua Victor Cordon), em Lisboa, num edifício propriedade da “Casa de Bragança” e projectado pelo arquitecto Feliciano de Sousa Correia - um dos arquitectos da Inspecção Geral de Obras Públicas do Reino - abriu as suas portas, como “Hospedaria Braganza” no início do século XIX.

O “Braganza Hotel”  já o era mesmo antes de depois continuar a ser mencionado, em 1845 na “Revista Universal Lisbonense” como “Hospedaria Braganza”, quando aí se hospedou o filho do Rei do Congo.

Foi evocado na génese do Romantismo literário por John Harman Bedford na edição de Wanderings of Childe Harolde: “A Romance of Real Life...” de 1825. O triângulo amoroso Amelia (Darcy ou Osborne, cujo segundo marido, John Byron, mais tarde tornar-se-ia pai de Lord Byron), Glenville (o poeta) e Harold (personagem de Lord Byron) apresenta-nos o Hotel na carta deste ultimo:

"Braganza Hotel, Lisboa
Senhora,
A sua decisão de embarcar para Inglaterra tem toda a minha aprovação, e onde quer que vá, leve consigo os meus melhores votos de saúde e felicidade. Admito que o seu desejo súbito de deixar Lisboa me surpreendeu e teria feito muito mais, se eu não estivesse preparado para uma mudança nos seus sentimentos, ao tê-la visto com o seu amigo entre as ruínas do Castelo de Almada, num momento em que me tinha escrito a dizer que estava muito doente.
Durante toda a vida tenho tido por costume dar as minhas opiniões livres de disfarces, e se eu a tivesse deixado de a amar, ter-lho-ia dito sem hesitação. Onde não há confiança mútua, não pode haver real afeição, e quando a senhora se inclinou à dissimulação, perdeu tudo, excepto a minha amizade (...)"

“Braganza Hotel” a partir do Largo do Corpo Santo, em foto de C.P. Symends em Junho de 1856

«Em 1841, providencial incêndio apagou aquella pistuia da superficie da Lisboa moderna, já sufficientemente envergonhada com as podridões dos casebres do Loreto, que ainda existiam.
Mercê d'esse abençoado sinistro ve-mos hoje aí duas ruas ladeadas de bons prédios em alguns dos quaes ainda se conservam relíquias dos tempos idos, algumas janellas da primitiva construcção do palácio dos Braganças, isto da banda da rua do Thesouro Velho e do largo do Picadeiro, bem como as ha do tempo de D. João V, deitando para um pateo do edificio.
No hotel Bragança o envasamento da cantaria até ao primeiro pavimento é o mesmo que fizeram os operários do tempo do grande condestavel. Da mesma época são umas escadas subterrâneas, e cisternas que ha bastantes annos foram desentulhadas.» in: “Lisboa Antiga” de Julio Castilho

2 de Outubro de 1875

Não consegui apurar em que ano foi construído o edifício (talvez depois do grande incêndio de 1841), mas no 2º semestre de 1845 já a “Hospedaria Bragança” estava arrendada a Carlos Clemente Dyson. Posteriormente, e por escritura de 8 de Maio de 1850, e já com a designação de “Braganza Hotel”, viria a ser arrendado a D. Maria Vivion Dyson Meston. Desde Janeiro de·1877 (escritura de 10 de Novembro de 1876) até ao fim do 2º semestre de 1911 foi arrendado e explorado, a Víctor Carlos Sassetti (1851-1915), - dono do “Hotel Victor”, na Vila de Sintra fundado por seu avô Victor Domingos Sassetti, no início do século XIX.

Anúncio no “Handbook for Travellers in Portugal” de 1877

1887

O “Braganza Hotel” , era local de repouso de muitos ilustres viajantes, nacionais e estrangeiros, que demandavam Lisboa. Ficou também para a história como um dos locais onde semanalmente se reunia o grupo “Os Vencidos da Vida". Foi palco igualmente de cenas na obra literária de Eça de Queiroz. Da lista de hóspedes constaram, entre muitos outros, o imperador do Brasil, a rainha da Suécia, o rei do Suão e os embaixadores do Japão.

De pé: Conde de Sabugosa, Carlos de Lima Mayer, Carlos Lobo de Ávila, Oliveira Martins, Luís de Soveral, Guerra Junqueiro, Conde de Arnoso. Sentados: Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, Conde de Ficalho e António Cândido

  Carta a Camilo Castelo Branco de D. Pedro d’Alcantara                                          Menú em 1897

   1897 Menú.1

Eça de Queiroz menciona o “Braganza Hotel” em “Os Maias”, quando refere que Ega e Carlos «numa luminosa e macia manhã de Janeiro de 1877 (….) almoçaram num salão do Hotel Bragança, com as janelas abertas para o rio». 

Por outro lado, Maria Rattazzi no seu livro (traduzido) “Portugal de Relançe”, de 1880, relatava: «O Hotel Bragança, erguido n'uma das eminencias da cidade, com uma admiravel vista de mar, é excellente e muito bem administrado, mas caríssimo; é incomparavelmente o melhor de todos. Todavia asa camas são ahi tão duras como em qualquer outro; parecem cheias de rolhas de garrafas.»

Enquadramento do “Braganza Hotel” (´topo ocidental e gradeamento do edifício) no final da Rua António Maria Cardoso

R. António Maria Cardoso

Nota: Os prédios que se vêem na foto anterior foram concluídos em 1858. «Depois de concluídos foram arrendados pela primeira vez em 1861 e 1862. No do norte (n.05 18 a 26) estão actualmente instalados actualmente instalados os serviços da “Polícia de Vigilância e Defêsa do Estado”, e contígua fica- lhes a garagem dos automóveis (nº 30 a 34), e a seguir o refeitório (nº 36) da mesma polícia; no do sul (nº 2 a 10) está alojada a Embaixada do Brasil, e nos baixos a secretaria da Administração da Casa de Bragança, esta desde o 2º semestre de 1860.» in: Revista “Olisipo”, Junho de 1943.

Localização do “Braganza Hotel” indicada dentro da elipse desenhada

Mas como “nem tudo são rosas”, retirei da revista “Edimburgh Review, or Critical Journal: for July, 1893 October, 1893”, e depois de traduzida, a seguinte passagem:

“Acerca do Braganza Hotel ela relata:
O nosso quarto era um grande espaço caiado de branco; havia três buracos na parede, num deles ao lado da cama seres eriçados com chifres, eram baratas com umas três polegadas de comprimento. A sala era linda com cetim amarelo, e os magníficos cortinados amarelos eram polvilhados com essas coisas rastejantes. A consequência era eu ficar em pé numa cadeira e gritar. Isso irritava muito o Richard. «Que boa viajante e companheira te estás a tornar», disse ele. «Suponho que te aches muito bonita e interessante de pé em cima de uma cadeira e uivar com aquelas inocentes criaturas». Isso magoou-me tanto que, como Avithout descendo da cadeira, parei de gritar e meditei, tal como St. Simon Stylites em seu pedestal, «se eu ia morar num país sempre em contato com essas coisas, ou pior, embora eu tivesse horror de qualquer coisa preta e rastejante, nunca poderia continuar assim». Então desci, peguei uma bacia de água e num chinelo, e em duas horas, pelo relógio, tombaram noventa e sete deles para dentro dela. Isso curou-me. A partir desse dia, não tive mais medo de vermes e répteis, o que é tão bom num país onde a natureza é demasiadamente luxuriante. Pouco depois, mudámos de quartos. Fomos sucedidos pelo falecido Lord e Lady Lytton, e para meu infinito deleite, ouvi os mesmos gritos vindos das mesmas salas. «Olha !» disse eu triunfante, «vê que não sou a única mulher que não gosta de baratas»”.

 

Por outro lado, e como “nem tudo é mau”, retirei do livro “Wanderings in the land of Ham, by A daughter of Japhet” (1858), a seguinte passagem, depois de traduzida:

«Parece-me que foi construído para ser um palácio.
Existem três pisos: O primeiro e o segundo consistem em suítes e quartos, com tectos muito altos e de dimensões igualmente espaçosas, e no terceiro andar há quartos menores, com apenas metade da altura. Parecia que não havia ninguém no hotel, mas nós, com permissão do nosso anfitrião, um tal sr. Dyson Meston, homem antipático, infeliz como um ex-rei, vagueámos pelo tempo que quisemos, parecendo ele que não estava interessado em saber de onde vinha-mos. Quando ficámos cansados ​​de caminhar pelas esplêndidas suítes, todas igualmente bem mobiladas, instalámo-nos na melhor que o prospecto mostrava. Uma ampla varanda de pedra, em forma de terraço, corria em frente às nossas janelas, na qual nos sentávamos ao ar livre sempre que o calor do sol nos permitia, desfrutando a vista esplêndida diante de nós. Sob os nossos pés estava a cidade de Lisboa; além, o Tejo com os seus barcos; à nossa direita, o mar aberto e a Torre de Belém; enquanto que à nossa esquerda, e na margem sul do rio, havia um país ricamente arborizado, altamente cultivado e montanhoso, formando, no seu todo, uma paisagem para além do que a vista deixava ver».

1903

Anúncio no “Handbook for Berkshire”, em 1905

Ainda antes da morte de Victor Carlos Sassetti em 6 de Dezembro de 1915,  e depois 3 anos e meio devoluto, o edifício do “Braganza Hotel” foi alugado, em 5 de Agosto de 1915, às “Companhias Reunidas Gás e Electricidade” (CRGE), que ali permaneceria até 1966. Entretanto o edifício tinha já passado em 1950 para a posse da “Fundação D. Manuel II”. A última entidade a ter estado nele instalada foi a “Sociedade Cooperativa – Universidade Livre”. Actualmente, encontra-se devoluto.

        

Actual.1 

Fotos in:  Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Ruas de Lisboa com Alguma História

2 comentários:

Rui Granadeiro disse...

Caro José Leite,

Desejando-lhe um excelente Novo Ano.

O Braganza Hotel [rua Do Thezouro Velho, 36] já o era mesmo antes de depois continuar a ser mencionado, em 1845 na Revista Universal Lisbonense, como Hospedaria-de-Bragança quando aí se hospedou o filho do rei do Congo.

Foi evocado na génese do Romantismo literário por John Harman Bedford na edição de Wanderings of Childe Harolde: A Romance of Real Life... de 1825.

O triângulo amoroso Amelia [Darcy ou Osborne, cujo segundo marido, John Byron, mais tarde tornar-se-ia pai de Lord Byron], Glenville [o poeta] e Harold [personagem de Lord Byron] apresenta-nos o Hotel na carta deste ultimo:

"Braganza Hotel, Lisboa

Senhora,

A sua decisão de embarcar para Inglaterra tem toda a minha aprovação, e onde quer que vá, leve consigo os meus melhores votos de saúde e felicidade. Admito que o seu desejo súbito de deixar Lisboa me surpreendeu e teria feito muito mais, se eu não estivesse preparado para uma mudança nos seus sentimentos, ao tê-la visto com o seu amigo entre as ruínas do Castelo de Almada, num momento em que me tinha escrito a dizer que estava muito doente.

Durante toda a vida tenho tido por costume dar as minhas opiniões livres de disfarces, e se eu a tivesse deixado de a amar, ter-lho-ia dito sem hesitação. Onde não há confiança mútua, não pode haver real afeição, e quando a senhora se inclinou à dissimulação, perdeu tudo, excepto a minha amizade [...]"

Rui Granadeiro

José Leite disse...

Caro Rui Granadeiro

Muito grato pelo seu comentário e informação relevante.

Se não se importar, vou transcrever a sua informação no texto do artigo para informação mais rigorosa.

Com os meus renovados agradecimentos, e desejando um Bom Ano de 2018 para si e sua família, os meus cumprimentos

José Leite