16 de junho de 2016

Estádio José Alvalade

O primeiro campo do “Sporting Club de Portugal”, fundado em 1 de Julho  de 1906, começou a funcionar em 8 de Maio de 1906, no nº 73 da Alameda do Lumiar - hoje Alameda das Linhas Torres - no chamado Sítio das Mouras. Os terrenos foram cedidos pelo Visconde de Alvalade, que correspondeu à vontade do neto, José Alvalade, de consolidar um novo clube depois da cisão do “Campo Grande Football Club”. A cedência incluiu, ainda, um edifício na mesma Alameda, para funcionar como a primeira sede do “Sporting Club de Portugal”.

“Stadium do Lumiar” com as bancadas em construção

 

 

José Alfredo Holtreman Roquette conhecido por José Alvalade (1885-1918)

 

No ano seguinte, a 4 de Julho de 1907, houve uma remodelação que melhorou substancialmente as condições desportivas: além de um campo de futebol, o segundo campo dos leões passava a contar com uma pista de atletismo, dois courts de ténis, pavilhão com vestiários e armários pessoais, chuveiros e banhos de imersão, sala de estar e de jogos, sem esquecer a cozinha equipada para a preparação de refeições ligeiras. Este complexo ficou a ser o melhor de então em Portugal e situava-se no mesmo local do primeiro campo, ao lado do Chafariz das Mouras.

“Estádio do Campo Grande”

Entrada para o Estádio e o restaurante “Campo Grande”

2º Encontro de futebol Lisboa-Madrid em 22 de Abril de 1928. Resultado 2-2

O “Sporting Club de Portugal” saiu do Sítio das Mouras para ocupar o Campo Grande 412, no dia 1 de Abril de 1917, data da sua inauguração. Este campo, anteriormente arrendado ao “Lisboa Football Club”, que entretanto se extinguiu, sofreu amplas melhorias levadas a cabo pelo arquitecto António do Couto que só foram possíveis graças ao dedicado dirigente Mário Pistacchini, que adiantou os quase 53 mil escudos necessários para as obras, na condição de o SCP lhe pagar quando pudesse, o que se veio a verificar uns anos mais tarde. Na sequência de acordos patrimoniais com a Câmara Municipal de Lisboa, o Sporting em 1940, num gesto de boa vontade, cedeu este campo ao eterno rival “Sport Lisboa e Benfica” quando este clube foi obrigado a abandonar o “Campo nas Amoreiras” para realização das obras  de construção do “Viaduto Duarte Pacheco” e da “Auto-Estrada Lisboa-Estádio Nacional”. Este estádio ficaria conhecido como a “Estância de Madeira” por ser totalmente construído em madeira.

“Estádio do Campo Grande” mais conhecido pela “Estância de Madeira”

Novo “Estádio do Campo Grande” mais conhecido pela “Estância de Madeira” já em remodelação

O quarto campo foi como que um regresso às origens. O “Stadium de Lisboa”, ou “Estádio do Lumiar”, tinha campo de futebol, pista de atletismo e velódromo, embora um pouco degradado. Este recinto, que viria a ser o cenário de tempos gloriosos do futebol leonino - caso do aparecimento dos “Cinco Violinos” - foi arrendado a 30 de Abril de 1937. Na sequência de acordos patrimoniais com a Câmara Municipal de Lisboa, o “Sporting Clube de Portugal”  tomou posse do Stadium, remodelando-o em 1947 com arrelvamento do terreno de jogo, a regularização da pista de atletismo e de ciclismo e a construção de bancada de cimento nos topos. Após esta transformação, o quinto campo de jogos leonino foi inaugurado em 13 de Junho de 1947, com um jogo de futebol entre os leões e o Atlético de Bilbau (4-4, no final da partida), ficando este recinto com um marco histórico: seria o primeiro campo de jogos do “Sporting Clube de Portugal” conhecido por “Estádio José Alvalade”, como viria a acontecer aos dois recintos desportivos que lhe seguiram.

“Stadium de Lisboa” ou “Estádio do Lumiar”

 

O edifício fabril que se vê ao fundo na foto anterior da esquerda, era pertença da “Fábrica Metalúrgica do Lumiar”, antecessor do edifício da “General Electric” que passaria, anos mais tarde, a fazer parte do complexo de Estúdios da RTP, os chamados Estúdios do Lumiar”.

Primeiro estádio com o nome de “Estádio José Alvalade” inaugurado em 13 de Junho de 1947

O sexto campo do “Sporting Club de Portugal”  viria a ser o “Estádio José Alvalade”  inaugurado a 10 de Junho de 1956, nos terrenos da Quinta das Mouras, propriedade de José Alfredo Holtreman Roquette, neto do visconde de Alvalade, Alfredo Augusto das Neves Holtreman. Relembro o que referi no início, que José Alfredo Holtreman Roquette, mais conhecido por José Alvalade (1885 - 1918) tinha sido o fundador e primeiro sócio do “Sporting Club de Portugal “ em 1 de Julho de 1906, juntamente com os irmãos Stromp, Henrique de Almeida Leite Júnior e os irmãos Gavazzo.

Cartaz do “Sporting Club de Portugal” de 1955

A construção do novo Estádio, cujo projecto do arquitecto Anselmo Fernandez foi autorizado em 18 de Dezembro de 1954,  foi financiada em parte pelos sócios do clube, incluindo as comissões Central do estádio, do Cimento e das Festas, e do Concurso Publicitário. Através de rifas e donativos, obtiveram-se 7.716.539 escudos. O início da sua construção teria lugar em 27 de Março de 1955.

Maquetas das diferentes propostas para o novo “Estádio José Alvalade”

 

Estádio em construção

No mesmo ano que comemorava o “Sporting Clube de Portugal” as suas bodas de ouro, na cerimónia de inauguração do novo recinto desportivo leonino, esteve presente o então Presidente da República, General Craveiro Lopes, que assistiu a um desfile de 1.500 atletas leoninos. Estiveram, igualmente, representadas nesta inauguração 31 federações e associações, 200 clubes e 70 filiais do SCP.

Inauguração do novo “Estádio José Alvalade” em 10 de Junho de 1956

De entre as várias instituições presentes destaca-se as do “Clube de Futebol Os Belenenses”, com mais de 300 atletas. O estandarte do “Sporting Clube de Portugal” desfilou poucos minutos depois de ter recebido a Ordem de Mérito Desportivo pelo Presidente da República, tendo sido transportada por Oliveira Duarte, Afonso Salcedo e Oliveira Martins, tendo José Travassos transportado a bandeira da “Federação Portuguesa de Futebol”. Este foi o maior desfile desportivo até então realizado em Portugal, abrilhantado mais ainda pelo facto de ao público ter sido pedida a presença com vestuário com as cores do clube, ao que a grande maioria aderiu. Até o presidente da mesa do “Sport Lisboa e Benfica”, Ribeiro dos Reis disse: «Tenho muito prazer em prestar homenagem ao nosso rival de sempre, compreendendo perfeitamente a maré alta de entusiasmo que vive neste momento a sua massa associativa, ao ver de pé uma obra de tamanha envergadura».

O jogo de inauguração do novo estádio do “Sporting Clube de Portugal”  disputado entre este e o “Vasco da Gama” do Rio de Janeiro, terminou com a vitória do “Vasco da Gama”, por 3-2. Este jogo teve, ainda, a particularidade de Juca (médio leonino) ter sido o autor do 1º golo marcado no novo estádio, mas …. marcado na própria baliza defendida por Carlos Gomes mas que não deixou de ser o 1º golo apontado no “Estádio José Alvalade”.

Uma das principais características do novo “Estádio José Alvalade”, com capacidade para 52.411 espectadores, era a sua pista de atletismo feita em tartan. Pista que antes de ser colocado o piso sintético também serviu muito o ciclismo, inclusive as famosas chegadas da “Volta a Portugal em Bicicleta”.

   

  

 

 

Mais tarde, em 1983, por força do presidente João Rocha, concretizou-se uma velha ambição de todos os sportinguistas, para que as instalações do Estádio fossem melhoradas. Assim foi feito o “fecho” do mesmo através da construção da chamada “Bancada Nova”, que substituiu o peão herdado do recinto anterior, aumentando a capacidade do “Estádio José Alvalade” para 75.000 espectadores. O espaço por debaixo da bancada foi muito bem aproveitado entre outras coisas para a construção de uma piscina e de um pavilhão para as restantes modalidades desportivas, a chamada “Nave de Alvalade”.

Em 1984, com esta bancada, o “Sporting Clube de Portugal” possuía no estádio e imediações 40 ginásios, sete pavilhões, uma pista de gelo, dois campos de treinos relvados, pista de tartan e o Estádio com capacidade para 75.200 espectadores.

Antigo Pavilhão Desportivo do SCP que viria a ser demolido para no seu lugar ser construída a Estação de Metro

Este Estádio viria a ser demolido e substituído pelo novo estádio do “Sporting Clube de Portugal” inserido no complexo “Alvalade XXI” , e inaugurado a 6 de Agosto de 2003, no âmbito das construções de novos estádios para o Campeonato da Europa de Futebol de 2004.

Novo “Estádio José Alvalade” no complexo “Alvalade XXI”

 

Principais características do actual “Estádio José Alvalade” :

Arquitecto - Tomás Taveira

Empresas construtoras - Alves Ribeiro, Novopca, Martifer, Tecnovia, Efacec, IBM e Siemens

Arranque da obra - 15 de Janeiro de 2001

Inauguração do Estádio - 6 de Agosto de 2003 (abertura de portas às 18h 30m)

Dimensões do relvado - 105 x 68 metros

Capacidade Total - 50.095 espectadores

Principal Distinção - Estádio “5 Estrelas’”da UEFA em Maio de 2005

Foi publicado, neste blog, em 7 de Junho de 2013 um  artigo acerca da história do “Estádio da Luz”  inaugurado em 1 de Dezembro de 1954 e pertença do “Sport Lisboa e Benfica”  e que pode ser consultado no seguinte link: Estádio da Luz

Brevemente será publicado um outro artigo acerca da história do “Estádio do Restelo” , inaugurado em 23 de Setembro de 1956 e pertença do “Cube de Futebol Os Belenenses”.

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Bibliografia: Site oficial do Sporting Clube de Portugal

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Sporting Clube de Portugal

8 comentários:

João Celorico disse...

Caro José Leite,
As fontes onde bebemos informação, de vez em quando estão inquinadas. Então as do desporto, nem se fala.
Isto para dizer que aquilo que ouvimos pode não ser exactamente assim mas, aquilo que vemos é difícil ser o contrário.
Vem isto a propósito do Estádio José de Alvalade que se diz ter sido inaugurado já em 1947.
Duvido! Eu sempre o conheci por Estádio do Lumiar até 1956 quando foi inaugurado o novo, então sim, chamado Estádio José de Alvalade. Sempre o conheci e lendo documentação da época, lá está!
Estive em 1951, no Estádio do Lumiar, a assistir a provas de ciclismo, assim como a algumas chegadas de Volta a Portugal.
Também em 1947, onde diz que o jogo com o Atlético de Bilbau foi no dia 13 de Junho (decorria o campeonato nacional e o Sporting jogaria a 15! com o Estoril) outros dizem ter sido no dia … 14 de Setembro! O 13 de Junho, uma sexta feira, poderá ter sido se atentarmos a que seria feriado. Mas, era só em Lisboa! Em Setembro, é o mais provável!

Infelizmente, e com desgosto o digo, o site oficial do Sporting Clube de Portugal, não pode ser considerado a “Biblia” do Sporting. Eu próprio, já me permiti escrever para o Diário de Notícias acerca dos Livros de Ouro do Sporting, Benfica e Porto e do Livro sobre a Taça de Portugal, assim como dirigir-me ao Sporting acerca do Almanaque do Sporting, onde as asneiras me ocuparam várias páginas.
O melhor que me prometeram, o Diário de Notícias, foi uma errata que, mesmo assim, deixou muito a desejar.
Sei que não se perde muito por estes assuntos mas, se o desejar, enviar-lhe-ei a documentação que refiro.
Também de referir que os livros citados foram escritos por jornalistas profissionais!!!

Melhores cumprimentos,
João Celorico

José Leite disse...

Caro João Celorico

Tem toda a razão ao afirmar que muitas das informações que "bebemos" na internet, e não só, estão por vezes "inquinadas" ou erradas, para não dizer muitas vezes.

Esse facto passa-se com organismos oficiais e de prestígio que deviam ter mais cuidado com o que escrevem e identificam. Quanto a datas, então, é melhor nem falarmos....

Quanto ao facto de ter escrito que o primeiro "Estádio José Alvalade" ter sido inaugurado em 1947, deve-se ao facto de estar escrito no site oficial do "Sporting Clube de Portugal" e que poderá confirmar no seguinte link:

http://www.sporting.pt/pt/clube/historia/estadios

Sempre procurei ser o mais correcto e fidedigno possível, mas até um historiador (que não é o meu caso) pode ser enganado se a fonte que considera, ou pensa, que é fidedigna falha, que infelizmente não é raro.

Grato pelo seu comentário.

Os meus cumprimentos

José Leite

Domingos Pio disse...

Boa tarde Sr. José Leite.

Primeiro quero felicita-lo pelo excelente trabalho que desenvolve neste seu blog.

E sem desprimor, quero chamar a atenção para a primeira foto, onde escreve que 1907 é a data da mesma, ora isso não é possível, pois a primeira aeronave a voar em Portugal foi em 1909, em Belém, e era pouco mais do que uma estrutura de madeira e cordéis. O avião que aparece retratado parece ser do final da Primeira Guerra, posterior portanto.

De qualquer modo, mais uma vez, parabéns pelo excelente artigo. mas sendo um amante da aviação não puder deixar de fazer um comentário.

Grato pela paciência.

Os melhores cumprimentos,

Domingos Pio.

José Leite disse...

Caro Domingos Pio

Antes de mais os meus agradecimentos ao elogio do trabalho que venho desenvolvendo neste espaço.

Tem toda a razão na sua chamada de atenção.

Não é pelo facto de me ter chamado à atenção, mas na datação indicada pelo Arquivo Municipal de Lisboa, logo desconfiei da mesma pois como o caro Domingos refere nunca poderia ser de 1907.

No entanto, com a complexidade da elaboração do artigo escapou-me a já publicada citação no título da foto errada do ano da fotografia. Datas e anos erradosnão são casos raros nos organismos oficias portugueses...

Os meus agradecimentos com os meus cumprimentos

José Leite

a.c. disse...

Excelente artigo, como de resto nos tem habituado.
A título meramente informativo, o edifício que aparece nalgumas fotografias e que era à data a Fábrica Metalurgica do Lumiar, foi o antecessor do edifício da G.E. (General Electric), que passou anos mais tarde a fazer também parte do complexo de Estúdios, que a R.T.P., tinha no Lumiar, ao cimo daquela mesma rampa, também visível nas fotos, cujo acesso era feito pela Alameda das Linhas de Torres.
Votos da continuação de um bom trabalho.
Cumptos.

José Leite disse...

Caro(a) A.C.

Muito grato pelo seu comentário e pela informação adicional.

Os meus cumprimentos

Mauro Domingues disse...

Fantástico artigo como tem sido hábito!


Obrigado,muito obrigado!

José Leite disse...

Caro Mauro Domingues

Eu é que agradeco a amabilidade do seu comentário.

Os meus cumprimentos