14 de fevereiro de 2016

Restaurante “Tavares Rico”

O actual restaurante "Tavares", na Rua da Misericórdia, em Lisboa, tem origem em 1784, quando o café e bilhares de Nicolau Massa de seu nome "O Talão", inicialmente instalado na Rua Larga de São Roque, se muda para o actual edifício em 1784 na, então Rua de São Roque. Este café transitaria para a posse de Bartholomeu Ansaldo em 1800, para José António Matheus em 1813, para Balthazar Affonso em 1820 e para Manoel Tavares e seu irmão Antonio Tavares  em 1823, mudando o seu nome para "Café Tavares".

«Manoel Tavares e seu irmão eram dois excentricos do mais fino quilate. Andavam de jaqueta e sapatos de ourêllo, e falavam em verso aos freguezes. Um d'elles arranjou uma quadra para advertir os mendigos, que vinham esmolar no café:

Perdoar e não entrar
Pedir, nunca importunar
E ainda não demorar
Freguezes não apoquentar

O "Café Tavares" tornou-se suspeito de liberal no tempo de D. Miguel, de sorte que os miguelistas o emparceiraram com outros coventículos dos 'malhados’, como eram o café das Columnas na Rua Larga de São Roque, o café do Bosque no Rocio e o café da Arcada no Terreiro do Paço.». A tal ponto, que uma vez o seu proprietário de então teve que assinar um compromisso, perante o intendente da Polícia, «em como não consentia, no futuro, que na sua loja houvesse conversações subversivas que alterassem o espírito público, como constava terem havido». No caso de tal suceder o botequim seria encerrado.

Em 1828, o estabelecimento encerra temporariamente, devido a conflitos entre Liberais e Miguelistas, reabrindo meses mais tarde, vindo a ser adquirido por  Vicente Marques Caldeira e seu filho Manuel Caldeira, em 1861, constituindo a sociedade “Vicente Caldeira & Filho”, que o modificou por completo, tendo entregue o respectivo projecto a Hermógenes dos Reis.

24 de Dezembro de 1896

“Cafe-Restaurant Tavares” após 1903, já propriedade de Manoel Caldeira

No Tavares, ainda solitário àquela hora, um moço areava o sobrado. E enquanto esperava o almoço, Ega percorreu os jornais. [...] Ega sorriu, cofiando o bigode. Justamente o bife chegava, fumegante, chiando na frigideirinha de barro. Ega pousou a Gazeta ao lado, dizendo consigo: "Não é nada malfeito, este jornal!"
O bife era excelente: — e depois duma perdiz fria, dum pouco de doce de ananás, dum café forte, Ega sentiu adelgaçar-se enfim aquele negrume que desde a véspera lhe pesava na alma. [...]
O relógio do café deu dez horas. "Bem, vamos a isto", pensou Ega.
Eça de Queirós, Os Maias, 1888.

O interior foi totalmente renovado e a cozinha preparada para servir refeições. Foi retirado o velho quiosque que existia no meio da sala e alterada a actividade comercial, passando a chamar-se "Café - Restaurant Tavares". A ideia de manter o apelido de um antigo proprietário no nome talvez fosse uma estratégia para cativar clientes. A sociedade alfacinha conhecia bem o botequim dos irmãos Manuel e António Tavares, já que durante a conturbada gerência iniciada por eles em 1823 o local foi considerado suspeito de apoiar os opositores ao rei D. Miguel.

Por esta altura, o bife servido no “Marrare das Sete Portas”, na Rua do Arco do Bandeira e propriedade de Manoel Antonio Peres, o Manoel Espanhol, já tinha créditos firmados entre os clientes mais exigentes. No entanto, a prosa de Eça de Queiroz também destaca o «bife excelente», a perdiz fria e o doce de ananás como pratos emblemáticos da ementa do “Tavares”, que o autor imortalizou em 1888 no romance “Os Maias”, o mesmo ano em que morreu Vicente Caldeira. O seu filho Manuel Caldeira, assume a gestão do restaurante e concluiu a construção iniciada pelo pai, com projecto de Joaquim Tojal, de uma clarabóia de vidro no pátio do primeiro andar e a divisão do espaço restante em gabinetes, gabinetes que só viriam a acabar em 1964.

Manuel Caldeira quis elevar ainda mais os padrões do estabelecimento quando, em 1903, entregou, de novo, Hermógenes dos Reis a renovação que colocou o Tavares no lote dos lugares mais exclusivos da Europa. A profusão de talha dourada com motivos rococó sobressaía entre os candeeiros em aplique. A estatuária pontuava ao longo da sala que combinava com elegância os estilos Belle Époque e Art Nouveau. No exterior, a entrada em vitraux de marquise sublinhava o lado sofisticado. Sobre a porta, o alpendre com vitrais ostentava ao centro o brasão da Casa Real em relevo. No primeiro andar os «gabinetes» foram decorados com frescos no tecto, mantendo-se reservados de olhares indiscretos.

Fachada renovada após 1923 e entrada para os “gabinetes” pela Rua das Gáveas

 

Gabinete

     

Salão no primeiro piso

Manuel Caldeira morre em 1923 e o restaurante é comprado pelo, então, gerente Miguel Villan Monrroy em sociedade com o filho José Marques. Em 1940 o “Café-Restaurant Tavares” abre falência. O jornal “Diário de Notícias” de 8 de Outubro noticiava que o recheio tinha sido leiloado em hasta pública. Entre outros desbaratos, o jornal destacava que um lote de 106 pequenas colheres da “Christofle” tinha sido arrematado por 150$00.

Notícia no “Diario de Lisbôa” em 8 de Outubro de 1940

   

O “Tavares Rico”, reabriria em 10 de Maio de 1941 pelo seu novo proprietário, a “Sociedade de Restaurantes, Lda.”, constituída por Francisco Ramalho, Cesário Rodrigues e Manuel José de Carvalho.

10 de Maio de 1941

Nos anos seguintes o restaurante “Tavares” foi gerido por algumas sociedades de forma titubeante até finais de 1955, quando uma nova gerência evitou que o espaço mudasse de ramo comercial. Com a  nova gerência constituída por Manuel José de Carvalho, Manuel Dias Agapito Serra, Manuel Ferreira, Manuel Caeiro e Henrique Vicente, o restaurante “Tavares” reabre em 15 de Janeiro de 1956 e entra em velocidade de cruzeiro. Foi nesse ano que Fernando Lopes entrou como ajudante de empregado de mesa, mantendo-se na casa durante 43 anos. Chegou depois a escanção e a sócio em 1963, vindo a tornar-se único proprietário, em 1973, ao comprar sucessivamente as quotas dos outros cinco sócios.

14 de Janeiro de 1956

 
Factura gentilmente cedida por Carlos Caria

Foi, porém, a necessidade de ter uma rotina mais tranquila que levou Fernando Lopes a vender o restaurante em 2002 ao advogado de Leiria, José Pereira dos Santos. Este avançou para a compra porque sonhava ter em Portugal um restaurante com nível de cozinha dos "estrelados" do guia “Michelin” que admirava lá fora. Depois de obras profundas, durante as quais foi criado no primeiro andar um salão de chá inspirado na pastelaria parisiense Ladurée, o espaço reabriria em 1 de Maio de 2004.

O restaurante sempre tinha sido gerido com os proprietários presentes, não ficando na história um registo forte dos diversos cozinheiros que por ali passaram. Nesta nova vida, o “Tavares” tinha um director de restaurante e a figura do chef assumiu pela primeira vez um papel de destaque. A contratação do reputado Joaquim Figueiredo não chegou a ter impacto, com o chef português a sair poucos meses depois, abandonando a carreira de cozinheiro por motivos pessoais. Mais tarde, a pastelaria do piso superior também encerrou.

O cansaço do advogado José Pereira dos Santos, por ter que acumular a gestão com a actividade de advogado em Leiria atingiu o ponto limite em 2006. «Disse para a minha mulher: ou acaba o Tavares ou acabo eu.» Passou a gerência e propriedade para a empresa “J. R. Costa”, do Grupo “Fénix” especializado em limpeza e segurança, que decidiu contratar o chef José Avillez. A nova proposta de cozinha era influenciada pelas técnicas da gastronomia molecular, um ramo científico da química alimentar que estuda a composição de cada alimento e as reacções que ocorrem durante a confecção. Foi assim que surgiram pratos como "Cascais à beira-mar", "Na horta da galinha de ovos de ouro" ou "Miragem de ostra petrificada no deserto", e que permitiram alcançar a ambicionada estrela no guia “Michelin” de 2010.

 

 

No entanto, a conquista parece não ter sido suficiente para manter o rumo desejado. No princípio de 2011, o jovem cozinheiro anunciava a sua saída devido a «divergências insanáveis com a administração do restaurante», segundo o comunicado divulgado pelo próprio. Em Março do memso ano, entraria uma nova equipa de cozinha, liderada por Aimé Barroyer, numa altura em que o espectro da falência voltou a pairar sobre o restaurante. Presentemente a cozinha é liderada pelo chef Hélder Martins.

Resta acrescentar que o “Tavares” ou “Restaurant Tavares”, ou “Salão de Chá-Restaurante Tavares” ou “Restaurante Tavares Rico”; constitui uma Zona Especial de Proteção conjunta do Bairro Alto e Imóveis Classificados na sua Área Envolvente.

E como hoje é “Dia de São Valentim” aqui fica a ementa …

Bibliografia: texto parcialmente retirado de artigo “As vidas que o Tavares viveu” publicado no jornal “O Público” em 24-12-2011 e da autoria de Fortunato da Câmara.

fotos in: Hemeroteca Digital, Arquivo Municipal de Lisboa, SIPA, Tavares

2 comentários:

Rodrigo Frade disse...

Agora está lá o brilhante chef Hélder Martins

José Leite disse...

Caro Rodrigo Frade

Grato pela informação adicional

Cumprimentos