20 de maio de 2015

Sinagoga de Lisboa

As comunidades judaicas de Lisboa reuniam-se, desde pelo menos o século XIII nas duas sinagogas da “Judiaria Grande” (situada à beira do esteiro da Baixa e Ribeira do Tejo, entre as freguesias da Madalena, e S. Nicolau) e outras já existentes no século XIV na “Judiaria Nova”, ou das Taracenas, e na “Judiaria Pequena” em Alfama. Em 1497 foram extintas as sinagogas e desmanteladas outras estruturas sociais pertencentes aos judeus lisboetas cujo património foi entregue a instituições eclesiásticas e de assistência. Desde então até aos inícios do século XIX não existiu em Portugal culto oficial judaico.

“Judiaria Grande” no centro da gravura com a sua área a ponteado grosso, entre a Rua da Prata e Rua da Madalena

Abolida a Inquisição em 1821, só em meados desse século voltaram timidamente a funcionar em Lisboa algumas sinagogas, em simples apartamentos de habitação, a última das quais no Beco das Linheiras. Deste local foram trasladados solenemente para a “Sinagoga Nova”, em 1904, os rolos da "Thorá", o Livro das Sagradas Escrituras.

Em 1897, é criada em Lisboa uma comissão para a edificação de uma sinagoga, coincidindo este acto com a eleição do 1.º Comité da Comunidade Israelita de Lisboa, cujo Presidente Honorário era Abraham Bensaúde e o Presidente Efectivo, Simão Anahory.

O projecto da “Sinagoga de Lisboa” foi da autoria de um dos mais notáveis arquitectos da época, Miguel Ventura Terra

Depois do terreno para edificar a “Sinagoga de Lisboa” "Shaaré Tikvá" (Portas da Esperança) ter sido comprado em nome de pessoas particulares, o edifício teve de ser construído dentro de um quintal murado, dado que não era permitida a construção de qualquer templo não católico com fachada para a via pública. Situado na Rua Alexandre Herculano, nos antigos terrenos de Valle de Pedreiro, junto ao Rato, foi lançada a primeira pedra em 1902. A Sinagoga “Shaaré-Tikvá” (Portas da Esperança) foi inaugurada em 18 de Maio de 1904.

                                     Primeira pedra em 1902                                 Cerimónia do lançamento da primeira pedra

   

Colónia Israelita em Lisboa em 1904

Sinagoga em 1904 nas traseiras da Casa Ventura Terra “Prémio Valmor de Arquitectura” 1903

Notícia da inauguração no jornal “Diario Illustrado”

Inauguração.1

A “Sinagoga de Lisboa” nos anos 50 do século XX

A nova Sinagoga, para substituir a antiga no Beco dos Apóstolos, foi mandada construir por uma comissão nomeada pela colónia israelita de Lisboa, representada por Leão Amzalak, e feita por subscrição aberta entre a mesma colónia. Foi projectada para comportar 400 homens no pavimento principal e 200 senhoras nas galerias do pavimento superior.

Além do templo, propriamente dito, contem sala para casamentos, de espera, para reuniões, vestiários, habitação completa do rabi e outras dependências.

A “Sinagoga de Lisboa” nos anos 50 do século XX

Existem diferentes tipos de sinagogas, mas todas estão subordinadas a algumas regras:

- Nenhuma sinagoga pode ultrapassar o Templo em grandeza e beleza.
- Nas sinagogas de rito ortodoxo existe uma separação (‘mehitsa’) entre homens e mulheres que pode tomar a forma de um balcão próprio ou de um pequeno muro.
- As sinagogas têm de estar viradas para leste, ou seja, para Jerusalém, nomeadamente a Arca Sagrada que contém os rolos da Tora.
- É totalmente proibido qualquer tipo de imagens humanas. A decoração é feita através dos símbolos da vida judaica: a Estrela de David, o candelabro («menorah»), o próprio “chofar” (chifre de carneiro utilizado em Rosh-Hashaná e Kipur, cujo toque invoca a misericórdia de Deus, lembrando o sacrifício de Isaac).

o “Epal” (Arca de Lei)

A arca, representa a ligação entre Deus e o Povo Judeu. Nas portas da arca estão inscritos os 10 mandamentos. Nesta arca são guardados os pergaminhos sagrados, os rolos da "Thorá", o Livro das Sagradas Escrituras, que são retirados e lidos pelo rabi durante as orações.

Lanche na colónia israelita, nos jardins da Sinagoga com Simy Benoliel e Esther Benoliel na foto

Casamento hebraico na Sinagoga de Lisboa em 1915

“Sinagoga de Lisboa”, actualmente

            Entrada discreta na Rua Alexandre Herculano                                                 Exterior da Sinagoga

 

Interior da Sinagoga de Lisboa

 

Em 2006 evocaram-se os 500 anos do massacre de judeus em Lisboa. Reza a história que entre os dias 19 e 21 de Abril de 1506, quatro mil judeus foram perseguidos, mutilados e queimados vivos na capital, o chamado “pogrom’”de Lisboa.

Damião de Góis, Garcia de Resende e Alexandre Herculano foram algumas das vozes que relataram esse massacre de quatro mil judeus, em 1506. Na “Igreja de São Domingos”, na Baixa lisboeta, alguém gritou ter visto o rosto de Cristo iluminar-se no altar. A fé cegou os populares, que rejeitaram a explicação, dada por um judeu convertido, de que era um reflexo do sol. O ‘blasfemo’ foi arrastado, com o irmão, até ao Rossio, onde ambos foram espancados até à morte. Seguiram-se três dias de perseguições, violações e morte. As vítimas foram homens, mulheres e crianças, todos judeus. Frades dominicanos terão incitado a populaça que repetiu à exaustão: «Morte aos Judeus, morte aos hereges!»

A “Igreja de São Domingos” numa gravura do Rossio antes do terramoto de 1755. Agua-tinta, desenho à pena a nanquim de Zuzarte, século XVIII, fragmento

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Digital, Arquivo Municipal de Lisboa, Sinagoga de Lisboa

8 comentários:

Graça Sampaio disse...

Linda a gravura!! (Quanto ao resto da entrada de hoje nem vale a pena elogiar - tão completa como habitualmente) Agradeço sempre estas lições de História.

Cumprimentos,

José Leite disse...

D. Graça Sampaio

Grato pelo seu amável comentário.

Os meus cumprimentos

José Leite

terezinha disse...

Sempre muito interessante e enriquecedor visitar o seu blogue.
Obrigada pelas suas partilhas.

José Leite disse...

D. Tereza

Muito agradecido pelo seu amável comentário.

Cumprimentos

1Berto disse...

Gosto imenso de visitar o seu blogue, deixo os meus Parabéns e votos de muitas felicidades .

José Leite disse...

Muito grato pelas suas simpáticas palavras.

Cumprimentos

Anónimo disse...

A menos que à época a designação fosse outra, a rua actualmente chama-se do Vale Pereiro. A gravura, que já apareceu completa noutro post seu, tem à esquerda a sombra do sombrio Palácio da Inquisição.
Cumprimentos
Gonçalo

José Leite disse...

Caro Gonçalo

Não está confundindo com o Vale Pereiro, entre o Passeio Público e a Cadeia Penitenciária, onde se viria a construir a Rotunda?

Os meus cumprimentos