19 de setembro de 2014

Jardins-Escolas João de Deus

João de Deus de Nogueira Ramos (1830-1896), mais conhecido por João de Deus, foi um eminente poeta lírico e pedagogo, considerado à época o primeiro do seu tempo, e o proponente de um método de ensino da leitura, assente numa “Cartilha Maternal” por ele escrita, que teve grande aceitação popular, sendo ainda utilizado. Gozou de extraordinária popularidade, foi quase um culto, sendo ainda em vida objecto das mais variadas homenagens. Foi considerado o poeta do amor e encontra-se sepultado no Panteão Nacional da Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa.

João de Deus de Nogueira Ramos (1930-1896)

 

Publicidade à “Cartilha Maternal” no ano da sua publicação, 1877

    

A história dos Jardins-Escola João de Deus tem origem a 18 de Maio de 1882, quando foi criada a “Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus”, fundada por Casimiro Freire, tendo no seu seio João de Barros, Bernardino Machado, Jaime Magalhães Lima, Francisco Teixeira de Queiroz, Ana Castro Osório, Homem Cristo, entre outros.

Casimiro Freire (1843-1918)

«(…) reuniram-se algumas dezenas de cidadãos e fundaram a Associação de Escolas Móveis, com o fim de ensinar a ler, escrever e contar pelo método de admirável rapidez, do Senhor Dr. João de Deus, os indivíduos que o solicitarem, até onde permitam os seus meios económicos, enviando nesse intuito às diversas povoações da nação portuguesa professores devidamente habilitados - não se envolvendo em assuntos políticos, nem quaisquer outros alheios ao seu fim

Em 1908, João de Deus Ramos, filho de João de Deus, assume a direcção da Associação que seu pai tinha fundado. por proposta deste foi alterado o nome da Associação passando para: “Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus, Bibliotecas Ambulantes e Jardins Escolas”. Após viagem que empreendeu pela França e a Suíça, criou os jardins-escolas adaptados à realidade portuguesa.

João de Deus Ramos (1878-1953)

Em 1909, o arquitecto Raul Lino apresenta o projecto para o primeiro “Jardim-Escola João de Deus” a ser construído em Coimbra, projecto-modelo que seria seguido e adaptado para todos os futuros Jardim-Escolas.

O primeiro “Jardim-Escola João de Deus”  foi o de Coimbra que foi inaugurado a 2 de Abril de 1911. A Câmara Municipal de Coimbra facultou um terreno com uma superfície de 4.800 m2 e o projecto de arquitectura foi oferecido pelo arquitecto Raul Lino, segundo as orientações pedagógicas de João de Deus Ramos tendo custado cerca de 4500$000 réis. Os fundos foram conseguidos através de donativos, mas principalmente graças aos serões musicais organizados pelo orfeão académico de Coimbra, dirigido por António Joyce, que conseguiram juntar a fantástica soma de 1480$000 réis.

“Jardim-Escola João de Deus” de Coimbra, ainda em fase de construção em foto de 1910

Festas de inauguração do “Jardim-Escola João de Deus” em Coimbra em Abril de 1911

 

Interior do Jardim-Escola João de Deus” de Coimbra

Diploma concedido aos alunos apurados nas missões da Associação

Artigo na revista “Illustração Portugueza”

Em 1915, foi inaugurado o “Jardim-Escola João de Deus” de Lisboa, na Avenida Álvares Cabral e, em 1917, o “Museu João de Deus - Bibliográfico, Pedagógico e Artístico”. Este último pretendia perpetuar-se a memória do criador do Método, e resultou do empenhamento de um grupo de propagandistas republicanos, tendo contado com a ajuda de Afonso Lopes Vieira que levou à imprensa a ideia de construção do “Museu João de Deus” que teria um duplo objectivo, o de ser um monumento ao poeta-educador e o de ser uma biblioteca de apoio à cultura portuguesa.

“Jardim-Escola João de Deus” na Avenida Álvares Cabral, em Lisboa

 

 

O projecto arquitectónico de Raul Lino, de Fevereiro de 1913, com pinturas decorativas de Leal da Câmara , apresentou um conjunto arquitectónico único. No alçado lateral Oeste encontra-se um painel de azulejo representando João de Deus a ensinar a ler, com a inscrição: "Associação de Escolas Móveis. Jardins Escolas João de Deus. Lisboa". Quanto ao interior: no primeiro piso localiza-se a cozinha, o refeitório e um grande salão que funciona como sala de aulas, os frisos, em tela, decorados por Leal da Câmara. A Oeste encontra-se o edifício do “Museu João de Deus - Bibliográfico, Pedagógico e Artístico”, que foi solenemente inaugurado, em 12 de Janeiro de 1917.

Interior do “Jardim-Escola João de Deus” na Avenida Álvares Cabral, em Lisboa

 

 

 

Em 1922, a “Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus, Bibliotecas Ambulantes e Jardins Escolas”, passou a designar-se por “Associação de Jardins-Escolas João de Deus”.

O filho do poeta João de Deus, João de Deus Ramos, falecerá a 15 de Novembro de 1953. O seu legado é incontornável: entre 1911 e 1953 ergueu 11 Jardins-Escolas, o Bairro Escolar do Estoril (1928), os Cursos de Didáctica Pré-Primária João de Deus (1943), o Museu João de Deus - Bibliográfico, Pedagógico e Artístico (1917). Viria a suceder-lhe Maria da Luz de Deus Ramos, sua filha, que estaria à frente dos destinos da “Associação dos Jardins-Escolas João de Deus” durante quase meio século.

Suceder-lhe-ia na direcção da “Associação de Jardins-Escolas João de Deus”, Maria da Luz de Deus Ramos (1918-1999), neta do poeta João de Deus e segunda filha do pedagogo João de Deus Ramos, cargo que exerceria até á sua morte em 1999.

Maria da Luz de Deus Ramos (1918-1999)

Suceder-lhe-ia, na presidência da direcção desta instituição, seu filho António de Deus Ramos Ponces de Carvalho (1958) até à actualidade.

António Ponces de Carvalho, actual Presidente da Direcção da “Associação de Jardins-Escolas João de Deus”

Capa do catálogo comemorativo do primeiro centenário do “Jardim-Escola João de Deus” de Coimbra

Actualmente a “Associação dos Jardins Escolas João de Deus” é considerada uma “Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS)”.

Segundo dados de 2013, esta Associação tem 8268 utentes nos 55 Centros Educativos distribuídos pelo país, cuja actividade se reparte por: 37 Jardins-Escolas, 7 Centros Infantis e Creche Familiar, 2 Ludotecas Itinerantes, 2 Museus, a “Escola Superior de Educação João de Deus”, os projectos "Anos Ki Ta Manda" e GIP (Gabinete de Inserção Profissional) e o “Centro de Acolhimento Temporário de Crianças e Jovens em Risco de Odivelas - Casa Rainha Santa Isabel”. Tem ao seu serviço 1261 funcionários, entre educadores, professores, auxiliares de educação e outros colaboradores.

Fotos in: Arquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional Digital, Associação de Jardins Escolas João de Deus
Fotos e bibilografia: Catálogo comemorativo “1º Jardim-Escola João de Deus. O Primeiro dos Centenários 1911-2011” – Ália Rodrigues e Ana C. Martins

9 comentários:

Manuel Tomaz disse...

Quando vim para Lisboa, nos anos 50, conheci, por fora, o edifício da Escola João de Deus, junto ao Jardim da Estrela, na av. Alvares Cabral. Só anos mais tarde fiquei a conhecer esta forma de educação João de Deus.
Os meus cumprimentos,
Manuel Tomaz

Calantrao disse...

De um antigo aluno do Jardim Escola João de Deus, pai de um atual aluno do Jardim, um obrigado.

José Leite disse...

Calantrao

Não tem que agradecer. Foi um prazer fazer uma artigo acerca duma instituição como esta.

Os meus cumprimentos

José Leite

Tiago Landeira disse...

Fantástico!
Saudades deste tempo de menino.
Agradecido, por esta pequena grande homenagem.

José Leite disse...

Caro Tiago Landeira

Não tem que agradecer, eu é que agradeço a amabilidade das suas palavras.

Os meus cumprimentos

José Leite

Paulo disse...

Caro Sr. José Leite,

Pese embora saber que V.Exa. não o faz com este intuito, o de receber parabéns, tenho de humildemente lhos enviar. Não só por este artigo mas por tudo o blog. Espero ver este blog no formato livro algum dia, o que pensa sobre isto?

Queria também perguntar-lhe se era uma boa ideia deixar aqui um link para partilha do Livro do Centenário do Primeiro Jardim Escola João de Deus.
Um Forte e Fraterno Abraço,
Paulo Duque - Figueira da Foz

https://digitalis.uc.pt/pt-pt/livro/1%C2%BA_jardim_escola_jo%C3%A3o_de_deus_o_primeiro_dos_centen%C3%A1rios_1911_2011

José Leite disse...

Caro Paulo Duque

Fiquei muito sensibilizado com a amabilidade das suas palavras.

Quanto ao livro ... isso é para gente mais importante e intelectualmente competente.

Eu apenas não passo de um autodidacta que ocupa o seu tempo neste trabalho, que não deixando de ter o seu valor e utilidade, não vale mais que isso.

Os meus renovados agradecimentos, os meus cumprimentos

José Leite

Paulo disse...

Caro Sr. José Leite,

Está enganado Amigo porque se há "importantes" o Sr. é um deles e facilmente lhe digo o porquê, é que o nosso país está cheio de "gente importante" que não faz e o Sr. Faz.
O Sr. dá imensas alegrias a todos os que visitam o seu Blog.
E, sem o querer "engraxar", tenho uma enorme admiração pelo seu trabalho. MUITO OBRIGADO.

José Leite disse...

Caro Sr. Paulo

Eu é que agradeço as suas amáveis e elogiosas palavras.

E não tem que agradecer. É um prazer sentir que o meu trabalho é reconhecido e útil.

Isso já me basta.

Os meus cumprimentos

José Leite