13 de outubro de 2013

Aviões “Super-Constellation” da TAP

Projetado e construído pela “Lockheed Aircraft Corporation” sob rí­gidas especificações do lendário Howard Hughes, o “Super-Constellation” deu iní­cio, a uma nova era no transporte aéreo mundial.

O projeto original, encomendado por Howard Hughes, accionista maioritário da extinta “TWA - Trans World Airline”, era de uma aeronave de longo alcance, capaz de voar sem escalas entre New York e Los Angeles, com autonomia transatlântica (3.500 milhas) e com uma capacidade mínima para 40 passageiros. Foi desenvolvido pela equipe de projetistas liderada por Clarence L."Kelly" Johnson, que tinha sido anteriormente responsável pelos modelos “Electra I” e pelo “Lodestar”.

No final de 1939, surgiu o projeto definitivo do novo avião, equipado com motores «Curtis Wright» R-3350 de 18 cilindros e 2.200 hp de potência, equipados com hélices de três pás, com quase cinco metros de diâmetro. A forma da fuselagem do “Super-Constellation” é ainda hoje considerada uma das mais graciosas e elegantes já concebidas. Ao projeto da asa foi dada especial atenção: sua forma foi baseada no projeto do caça «Lockheed» P-38 Lightning, proporcionando uma performance que surpreendeu até mesmo os engenheiros da Lockheed. Entretanto com o começo da II Guerra Mundial, os aviões que estavam sendo construídos para a TWA, seriam convertidos em aviões de transporte militar e o primeiro, versão C-69, voaria a 9 de Janeiro de 1943.

Primeiro “Super-Constellation”, na  versão militar C-69 em 9 de Janeiro de 1943

Em Dezembro de 1953, a primeira administração da nova “TAP - Transportes Aéreos Portugueses S.A.R.L.”, resultado da passagem de empresa pública a empresa privada,  apressou-se a promover um estudo visando a remodelação da frota da empresa, com vista a poder oferecer um serviço de transporte aéreo moderno, de qualidade e compatível com as necessidades crescentes da linha de África, onde ainda operava com os velhos e obsoletos «Douglas» C-47A (DC3) Dakota. A reconversão dos velhos «Douglas» C54A (DC4) Skymaster adquiridos à KLM, em 1954, foi uma medida transitória, entretanto tomada, enquanto se procediam a esses estudos para a selecção de um avião moderno para o longo curso.

Futuro «Lockheed» L-1049G Super Constellation “Vasco da Gama”

 

Havia,pois, urgentemente que aumentar a capacidade, reduzir os tempos de voo e melhorar a qualidade do serviço. Foi assim, que a TAP encomendou, em 1953, à “Lockheed Aircraft Corporation”  três “Super Constellation L-1049G”, também conhecidos na gíria aeronáutica por “Connie’s”, ou “Constellation’s”.

 

Para a TAP iniciava-se a era dos “Super-Constellation”, representando um salto qualitativo importante, já que cada novo avião significava em tonelagem e capacidade de transporte correspondente a dois  «Douglas» DC-4 “Skymaster” ou quatro «Douglas» DC-3 “Dakota”.

7 de Julho de 1956

O «Lockheed» L-1049G Super Constellation, “Super G”, com o prefixo CS-TLA, e batizado de “Vasco da Gama”, foi entregue em 15 de Julho de 1955, em Burbank, na Califórnia. Inicialmente sem radar de tempo, e tendo-o recebido apenas em 1961, foi o último aparelho da frota da TAP a ter este tipo de equipamento instalado. O vôo teria escala em New York e Santa Maria nos Açores. O percurso de New-York-Santa Maria durou 8h e 40m e Santa-Maria-Lisboa 2h e 50m.

«Lockheed» L-1049G Super Constellation “Vasco da Gama” em Heathrow (Londres)

Fotos do cockpit e interiores da cabine de passageiros, similares ao modelo “L-1049G” da TAP

 

 

«Lockheed» L-1049G Super Constellation “Vasco da Gama”  no hangar da TAP na Portela

«(…) há a notar que os dois quadrimotores foram conduzidos, desde o aérodromo da fábrica, em Burbank, na Califórnia, em voo transatlantico, até ao aeroporto de destino por tripulações nacionais: os comandantes José Sequeira Marcelino, Silva Soares, Dantas Maya, Décio Braga da Silva e Simões Muller; mecanicos Dias Lourenço e Martins d'Almeida e radiotelegrafistas Santos Serpa e Pereira.
A bordo do primeiro avião "Super-Constellation", que aterrou, impecávelmente, ao meio dia viajou desde Santa Maria, nos Açores, o sr. engº Francisco de Mello e Castro, presidente do Conselho de Administração dos TAP. Dos Estados Unidos, vieram também técnicos das fábricas da Lockheed e Curtis Wright.» in: Diário de Lisboa

Comandante José Sequeira Marcelino

  

                                     Dezembro de 1955                                                                    Julho de 1956

 

                                                                                    Maio de 1956

Os novos aviões, eram uma versão substancialmente melhorada da anterior versão L-1049E. Esta versão veio com maior capacidade de combustível, janelas quadradas e novos quatro motores "Curtis Wright" «turbo-compound» de 3.250 cavalos cada. Deslocavam 62 toneladas, à velocidade máxima de 600 Km/h, sendo a velocidade de cruzeiro 500 Km/h,

Estas aeronaves estavam destinadas a serem utilizados na linha de África, nas rotas Lisboa-Accra-Luanda-Lourenço Marques, tendo sido iniciadas em 27 de Novembro de 1955. O tempo de duração do vôo Lisboa-Luanda  passou de 22 horas de voo para 15, e para Lourenço Marques passou de 31 horas para 22. Nessa linha foi utilizada a versão de 69 passageiros. «O viajante terá na cabina do "Super-Constellation" mais a sensação de que está instalado num moderno hotel, do que própriamente num avião a que nem falta a confortável sala de estar.»

 

1961

                       Autocarro da TAP e aeronave                               Escada com coberta feita para o “Super-Constellation”

 

A sua cozinha, funcionando a electricidade produzida por geradores, estava apta a fornecer 140 refeições quentes, além das intermédias.

A tripulação técnica era composta palo Comandante, Co-Piloto, Mecânico, Navegador e Radio-Telegrafista.

Em 1957, os «Super-Constellation» são introduzidos nas linhas de Lisboa-Paris (Orly) e Lisboa-Londres (Heathrow), ao mesmo tempo que é contratada a compra de três aviões britânicos “Vickers Viscount” para o médio curso. Em 1958, dá início às ligações aéreas com Bruxelas e restabelecimento da escala de Leopoldville na linha de África. Em 1961 são estabelecidas as ligações Lisboa-Beira (Moçambique) e Lisboa-Bissau. Neste mesmo ano seriam encomendados três aviões birreactores Caravelle VI-R”, à francesa “Sud Aviation”.

 

«Lockheed» L-1049G Super Constellation “Vasco da Gama” em Orly (Paris)

 

«Lockheed» L-1049G Super Constellation “Mouzinho de Albuquerque” em Lourenço Marques

Em Junho de 1958 um L1049H (CS-TLD) foi recebido da “Seabord & Western” americana, para operar durante um ano. Esta versão, basicamente idêntica ao modelo “G”, possuía a fuselagem da versão militar de carga 1049 F, tendo o chão da cabina reforçado para utilização de carga, e o seu peso em vazio era bastante superior.

A aquisição de dois L1049-G em segunda mão em Maio de 1961, permitiram à TAP adicionar novas rotas e outros destinos a este equipamento. De salientar a particularidade destes aviões virem munidos com radar de tempo, que lhes acrescentou um nariz mais comprido, e tanques suplementares nas pontas das asas, os designados “tip-tanks”.  O nariz alongado incorporando o radar de tempo, foi mais tarde introduzido nos três primeiros aviões da empresa, aumentando a sua segurança e operacionalidade.

«Lockheed» L-1049G Super Constellation “Vasco da Gama”  em Leopoldville

«Lockheed» L-1049G Super Constellation “Salvador Correa” no Rio de Janeiro

 

Em 8 de Julho de 1961 foi inaugurada a rota Lisboa-Goa, operada pelo L-1049 CS-TLA “Vasco da Gama” e pilotado pelo Comandante José Sequeira Marcelino. Este vôo fazia escalas em Beirut, Damasco e Karachi, sendo a rota quinzenal. Com a invasão da Índia portuguesa pelas tropas da União Indiana, a rota é encerrada nesse mesmo ano, em 18 de Dezembro, cinco meses depois de ter sido iniciada, com o “Super-Constellation” da TAP a levantar vôo de Goa, pouco tempo depois do Aeroporto ter sido bombardeado.

A 27 de Maio de 1966, o Presidente do Conselho, Dr. Oliveira Salazar, efectuou a sua única viagem de avião no voo TP104 Lisboa - Porto, a bordo do “Super Constellation” L-1049 “Mouzinho de Albuquerque”, quando se dirigia a Braga para as comemorações do 28 de Maio de 1966. No final da viagem, terá desabafado ao Comandante António Abel Rodrigues Mano: “não gostei!”. E realmente foi a única vez que viajou de avião.

1966 Salazar no Constellation

Depois de, em 11 de Julho de 1965, um “Super-Constellation” da TAP ter estado presente na inauguração do “Aeroporto de Faro”, em 14 de Setembro de 1967, chegaria a Lisboa, pelas 17h 35m, e proveniente do Rio de Janeiro o último voo da era “Super Constellation” na TAP. Era o CS-TLC “Gago Coutinho”, que tinha entrado ao serviço em 19 de Setembro de 1955, sendo comandado pelo Comandante Costa Cabral.

Super Constellation” na inauguração do Aeroporto de Faro em 11 de Julho de 1965

                                 

No Aeroporto de Santa Catarina no Funchal em 1964

«Lockheed» L-1049G Super Constellation “Gago Coutinho” e sua tripulação à chegada a Lisboa

Assim se fez a história dos “Super-Constellation” na TAP, ao longo de 12 anos, com cerca de 16.000 voos efectuados num total superior a 33 milhões de quilómetros percorridos.

Os "Super-Constellation" que estiveram ao serviço da "TAP - Transportes Aéreos Portugueses" foram os seguintes:

Matricula: CS - TLA    Nº de Série: 4616    Nome: "Vasco Da Gama"                     Período de serviço: 1955-1967

Matricula: CS - TLB    Nº de Série: 4617    Nome: "Infante Dom Henrique"            Período de serviço: 1955-1967   

Matricula: CS - TLC    Nº de Série: 4618    Nome: "Gago Coutinho"                      Período de serviço: 1955-1967  

Matricula: CS - TLD    Nº de Série: 4808    Nome: " ---------"                                  Período de serviço: 1958-1959   

Matricula: CS - TLE    Nº de Série: 4677    Nome: "Salvador Correa"                     Período de serviço: 1961-1967  

Matricula: CS - TLF    Nº de Série: 4672    Nome: "Mouzinho de Albuquerque"     Período de serviço: 1961-1967    

Uma curiosidade: o atrás mencionado “Gago Coutinho”, depois de ter sido vendido à “International Aerodyne Incorporated”, que o transferiu para Miami, foi posteriormente, vendido à “Jack A. Crosson” a 21 de Novembro de 1968. Contudo o avião já estava a ser usado na ponte aérea do Biafra. Posteriormente viria a ser comprado pela “Phoenix Air Transport”, e baptizado de “Endeavour”. Mais tarde, é abandonado em Faro a 13 de Novembro de 1969.

 

Em 1978 foi vendido por 350 Libras esterlinas a um sucateiro, que posteriormente o vendeu aos irmãos Hohbert que o recuperaram e transformaram em restaurante - o “Super G” - junto à aerogare do Aeroporto de Faro, de Maio a Setembro de 1981. Com as obras de ampliação da nova aerogare, o avião viria a ser retirado e desmantelado.

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Voa Portugal, Airliners.net

Nota: Muito agradeço as fotos e propaganda disponibilizados pelos Srs. Sotero Ribeiro e José Guedes

16 comentários:

Anónimo disse...

linda a historia dos L-1049G/H na TAP, a VARIG utilizou também os Constelation em suas rotas nacionais e internacionais por varios anos a TAP e a VARIG operavam a linha Brasil/Portugal no famoso voo da amizade, posteriormente feito também pelos eletras da VARIG, pousando na Ilha do Sal este documentário me trouxe doces lembranças do meu tempo de mecânico destes aviões, adorei

Antonio Carlos Volpin disse...

Meu nome de guerra na VARIG era ANTONIO VOLPIN, sinto tanta saudade destes aviões, que tenho vontade de chorar . Fui mecânico, oriundo da REAL AEROVIAS , depois VARIG ate o fim de minha carreira 40 anos depois,poderia escrever um livro sobre o assunto, voei esta aeronave e depois o ELECTRA como mecânico de vôo. Tudo que vejo ou ouço sobre os CONIES
, me emocionam Estou com 71 anos de idade e, possuo um pequeno avião PA 22 bem conservado e ainda voando como diletantismo. Sou muito ruim em lidar e escrever com informática , mas vou guardar esta reportagem sobre a TAP e seus finados maravilhosos CONSTELATIOS .Fico feliz por poder guardar esta matéria... Muito obrigado por permirem que eu tomasse conhecimento sobre o CONIE MARAVILHA na TAP........

carlos disse...

Voei por mais de 3 décadas e, confesso, nunca tive esta ou aquela vontade de voar este ou aquele tipo de avião; mas o CONSTELLETION, penso eu, seria um avião que eu toparia voar enquanto piloto. Sua linha, seu desenho, seu perfil é nobre. Belo projeto.

Afonso Filipe disse...

Excelente artigo!

Armazém Hobbycenter disse...

Espectacular matéria sobre um emblemático avião que cruzou os céus com a bandeira Portuguesa. Parabéns.

Anónimo disse...

Belíssimo avião, o Super Constellation! Viajei num de Luanda para Lisboa em outubro de 1961, com os meus verdes 18 anos.
Parabéns pelo vosso excelente trabalho.

Tecnico (quase superior) de lazer disse...

vieram-me as lagrimas aos olhos com esta história.

estas aves lindas eram o meu fascinio de garoto.
obrigado e o meu reconhecimento pelo seu saber que me faz sentir um ignorante

Anónimo disse...

Ha algo errado, o Super Connie que foi abandonado nao era o CS-TLC mas sim o CS-TLA (Vasco da Gama) que por coincidencia foi o que veio inaugurar o aeroporto... LOL

F.A. disse...

Visitei o Museu do Ar em Sintra, onde encontrei este magnifico pássaro.
Fiz link para este superior artigo.
Obrigado.

Miguel Sabino disse...

"Ha algo errado, o Super Connie que foi abandonado nao era o CS-TLC mas sim o CS-TLA (Vasco da Gama) que por coincidencia foi o que veio inaugurar o aeroporto... LOL"

Afirmativo. O CS-TLC, coincidência das coincidências, teve uma historia exactamente igual, mas em Kirkop-Malta. Também se tornou um bar e foi queimado por vândalos em 1997, tal como o CS-TLA em Faro.

Acer Geral disse...

Vim de Luanda ao Porto num Super-Constellation' 1963. Era magnífico.
Dizia-se que se tivesse uma avaria poderia pousar no mar ficando emerso durante 48 horas. Será verdade?

Antero leite

J.Barreto disse...

O Super-Constellation "Mouzinho de Albuquerque", em que Salazar fez o seu baptismo aéreo em 1966, foi o mesmo avião que foi desviado pelo grupo armado de Palma Inácio na viagem entre Casablanca e Lisboa a 10 de Novembro de 1961, e pela janela do qual foram lançados milhares de panfletos sobre Lisboa e outras cidades do Sul do país.

Também eu fiz o meu baptismo aéreo num Super Connie, entre Lisboa e Porto, em 1964.

Manuel Espinho (Sénior) disse...

Fui tripulante de cabine da TAP durante 37 anos ,Entrei na Companhia em 1964 e o primeiro avião que voei fui o Super .Levava 20 e algumas horas para efectuar o vôo Liboa -Rio de Janeiro com 2 escalas intermédias (Sal e Recife) e ainda sou do tempo de ficarmos baseados 30 dias em Lourenço Marques (Moçambique ) fazendo 2 navetes por semana ,uma para Luanda e outra para Salesbury ,actual Harare ...;)...saudades...

Aleixo Corte-Real disse...

Excelente artigo.

Recordo me quando miúdo nos anos 80 ver aquele avião abandonado à entrada de Faro, que o meu pai dizia ser do tempo da guerra do Biafra.

Que pena já não fazerem aviões de passageiros apaixonantes como este ou o jumbo.

Viajar de avião perdeu todo o glamour que tinha antigamente.

Aleixo Corte-Real disse...

Excelente artigo.

Recordo me quando miúdo nos anos 80 ver aquele avião abandonado à entrada de Faro, que o meu pai dizia ser do tempo da guerra do Biafra.

Que pena já não fazerem aviões de passageiros apaixonantes como este ou o jumbo.

Viajar de avião perdeu todo o glamour que tinha antigamente.

Paulo Sousa Dias disse...

Tremendo.

Após mais de 15 anos desta saudável loucura do mundo da aviação, eis que encontro o melhor dos melhores relatos ilustrados sobre o mais belo avião alguma vez construído.
Note-se que apenas voo baixinho em simulação, mas recordo as noites perdidas aos comandos desta aeronave, exatamente tentando recriar essas gloriosas viagens entre a metrópole e as capitais das províncias coloniais, maravilhoso assim no virtual, imagino quem as pôde fazer ao vivo. Meus parabéns pelo artigo.