23 de novembro de 2012

Cruzador "Rainha D. Amelia"

A construção do cruzador "Rainha D. Amelia",  iniciada a 18 de Agosto de 1897, ficou a dever-se ao então ministro da marinha (em Abril de 1899) conselheiro Jacintho Candido da Silva, que logo que tomou posse nos concelhos da corôa, em 1896, tratou de imediato da completa remodelação do Arsenal de Marinha, que se encontrava incapaz de satisfazer as várias exigências da sua missão.

                              Arsenal da Marinha nos finais do século XIX, antes e após as obras de remodelação

Arsenal da Marinha.0 Arsenal da Marinha.2

Faltando um experimentado técnico naval foi contratado o engenheiro francês Mr. Croneau.

                                                              

                                                                                     Projecto

                              

                              

                                            Início da construção do cruzador "Rainha D. Amelia" em 1897

                               

Abandonam-se os navios mistos e mandam-se construir modernos navios de aço e propulsão exclusivamente mecânica de que se destacam os cinco cruzadores que deram ao ministro o apelido de «Ministro dos Cruzadores». As construções destinadas ao Ultramar foram então exclusivamente de navios metálicos e desprovidos de aparelho vélico alternativo.

O velho Arsenal de Marinha foi remodelado e preparado para as novas construções que passou a executar ainda no século XIX, pelo que este engenheiro francês Mr. Croneau ao aperceber-se da difícil empreitada exigida, montou novas oficinas neste estaleiro, importou máquinas, educou e formou pessoal, conseguindo desse modo em vinte meses lançar à água o novo cruzador, construído sob sua direcção e planos.

Pelas 14h e 30 m da tarde de 10 de Abril de 1899, foi lançado à água o novo cruzador da Marinha de Guerra portuguesa de seu nome "D. Amelia", nos estaleiros do Arsenal da Marinha em Lisboa.

                               

     Cruzador D. Amelia.3    

«A assistir á festa, desde manhã que os felizes comtemplados com bilhetes se dirigiam para o arsenal, onde a entrada, a partir do meio dia, se tornou extremamente difficil, chegando a ahaver trop de zéle da polícia, que por vezes se excedeu, com brutalidades varias, não respeitando sequer senhoras nem creanças. Mas isso não admira.Os policias estavam de luva branca, mas d'espirito preto, pelo que até não reconheciamos bilhetes de livre transito, passados e assignados pelo seu commandante, pois que, desconsiderando a este e ás ordens de serviço, houve guardas que prenderam reporters de jornaes que apresentavam o bilhete de livre transito!». in: "Illustração Portugueza"

O aspecto dos palanques construídos no Arsenal para a cerimónia era muito bom, bem como o espectáculo que oferecia o Tejo, onde se destacavam centenas de barcos a remos e a vapor, entres os quais o «Victoria», que recebeu passageiros a troco de 300 reis cada um. Também cruzavam muitos escaleres de navios de guerra e os vapores «Berrio» e «Lidador» e rebocadores do Arsenal e alfândega, «fazendo estes afastar os demais barcos até á linha do ancoradouro dos navios de guerra, á terra da qual estava a boia a que o novo cruzador devia amarrar.».

                               

A guarda de honra chegou ao Arsenal da Marinha às 4h e 30m  da tarde formada por um destacamento de 80 praças do corpo de marinheiros e precedida pelo terno de corneteiros e a a bnad do corpo. De seguida chegaram . Maria pIa e D. Afonso seguidos de D. Carlos  e sua esposa, que foram recebidos por membros do ministério e oficiais generais do exército e da armada.

Atingida a praia-mar ás 2h e 15 m foram soltas as escoras «sendo a senhora D. Amelia quem, adiantado-se, disse n'essa occasiao: Vae, vae,vae, em nome d'el-rei. Vae com Deus.». Realizado o lançamento à água os navios de guerra no Tejo embandeirados, efectuaram uma salva de 24 tiros.

De assinalar a ocorrência de um acidente com o operário Caetano Duarte, das construções de ferro, que atingido por uma das escoras ao soltar o navio. «Segundo o exame medico, o pobre operario tem contusão na região lombo-sagrada, com paralysia da bexiga e dos membros inferiores.».

«Ao cair o novo barco á agua, houve muitos vivas. Os mais sympathicos foram estes: Viva a marinha! Viva o operariado portuguez!.
Na estação dos caminhos de ferro do sul e sueste venderam-se mais de 300 bilhetes de gare que foram utilisados por individuos que desejaram estar na ponte e vêr o laçamento.»

                                                               Cruzador "Rainha D. Amelia" em 1908

                             

Especificações Técnicas

Material de Construção: Aço (primeiro navio a ser construído neste material pelo Arsenal da Marinha)

Comprimento: 75 mts
Boca: 11,4 mts
Calado: 4,12 mts
Pontal: 6,6
Deslocamento: 1.683 Tons.

Motores: 4 Máquinas a vapor de tríplice expansão num total de 5.000 hp
Caldeiras: 8, do tipo Sigaudy Normand
Veios de hélices: 2

Artilharia:
4 peças de 150 mm T R Schneider
2 peças de 100 mm T R Schneider 
2 peças de 47 mm
2 peças de 37 mm
2 metralhadoras de 6,5 mm
Torpedos: 2 tubos para lançamento de torpedos Whitehead acima da flutuação

Velocidade: 18 nós

Guarnição: 263 homens, incluindo oficiais e praças.

                             

Ainda em Junho do mesmo ano de 1899 seria entregue pelos estaleiros "Armstrong Elwisck Shipyard" de New-Castle-on-Tyne, o cruzador "D. Carlos" após concurso de adjudicação aberto em 27 de Junho de 1894. Neste mesmo ano estavam sendo construídos em França, nos estaleiros da  "Compagnie Forges et Chantiers", os cruzadores "S. Gabriel" e "S. Raphael", que seriam entregues em Setembro de 1900.

                                                                    Cruzador "D. Carlos I" (1898-1923)

                              

                                                                    Cruzador "S. Gabriel" (1898-1924)

                               

                                                                    Cruzador "S. Raphael" (1898-1911)

                                                       

O cruzador "Rainha D. Amelia", já rebatizado de "Republica" em 5 de Dezembro de 1910, assim como o "Theatro D. Amelia" viria a ser igualmente rebatizado com a mesma designação no ano seguinte, encalhou junto ao Cerco da Consolação na praia de Peniche em 6 de Agosto de 1915 vítima do nevoeiro. Em consequência deste encalhe este navio foi dado como perdido e posteriormente desmantelado.

                                     

                               

fotos in: Hemeroteca Digital, Arquivo Municipal de Lisboa

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