2 de março de 2012

Aero Portuguesa

Já em a 19 de Maio de 1927, a alemã “Junkers” tinha fundado a “SAP - Serviços Aéreos Portugueses, Lda.”, sendo a primeira companhia aérea comercial portuguesa. Com um capital social de 50.000 escudos, em conjunto com os sócios privados António Alberto Eça de Queirós, J. Wimmer & Co., Willi Albert Grote e José Vieira da Fonseca, esta Companhia estabelecia as ligações aéreas entre Lisboa Sevilha e Madrid.

“Aero Portuguesa” foi fundada em 22 de Junho de 1934 pelo Comandante João Júdice de Vasconcelos, sendo António de Medeiros e Almeida detentor da maioria do capital social e que tinha fundado em 1924 a empresa A. M. Almeida, Lda. importadora dos automóveis «Morris» para Portugal. Esta Companhia iniciou a sua actividade em 14 de Outubro de 1934 com o trimotor «Fokker» apelidado de “Joyeuse” fretado à “Air France” (piloto Denis e mecânico/rádio Fangeaux) voando do Parque Aeronáutico de Alverca para Tanger. O objectivo inicial, além do transporte de passageiros para Tânger e Casablanca, era o estabelecimento de ligações aéreas postais entre Portugal e o Brasil, utilizando a linha da “Air France” para a América do Sul.

                                                      António de Medeiros e Almeida na porta do avião

                                     

                                                  Evocação do Comandante João Júdice de Vasconcelos

                                              

                                     Voo inaugural no Parque Aeronáutico de Alverca,em 20 de Outubro de 1934

                                        

A frota foi iniciada por um monomotor «Latécoère 28», seguido de outros três aparelhos e finalmente o «Farman» 2200, pertencentes à “Air France” seu accionista maioritário, com que em Janeiro de 1936 foi iniciado, finalmente, os voos regulares e semanais Dakar-Natal-Rio de Janeiro-Buenos Aires. Foi pois em Janeiro de 1936 que se iniciou o serviço regular semanal entre a Europa e a América do Sul e a  "Aero Portuguesa" anunciava nos jornais a ligação postal aérea entre Lisboa e o Brasil em 48 horas, o que representava um verdadeiro record.

A “Aero Portuguesa” voou para Tanger e Casablanca, inicialmente com um Fokker Viib-3m (CS-AAM - 1936), seguindo-se o Amiot Toucan AAC 1 (CS-ADA - 1938), dois Wibault-Penoët 282-T-12 (CS-ABX e CS-ADB – 1941), Lockheed 18-07 Lodestar (CS-ADD – 1941) e Douglas C-47A-85-DL (CS-ADB -1950).

                         

                                     «Fokker» Viib-3m                                                      «Wibault-Penoët» 282-T-12

         

                                                                           «Lockheed» 18-07 Lodestar

                                       

                                                                Etiquetas de bagagem de 1938 e de 1948

                   

Não existiam mecânicos, nem radiotelegrafistas que tivessem certificado comercial e os poucos pilotos militares que o possuíam não eram cedidos pelos respectivos Ministérios. Por consequência teve de se recorrer de início a uma tripulação totalmente estrangeira e aos poucos substituindo por portugueses, objectivo que só dois anos depois de iniciada a linha foi completamente alcançado, com a entrada para a Companhia do comandante José Cabral.

O objectivo da "Aero Portuguesa" era estender os seus voos em 1936 para Madrid e Paris, assim como ligações à Guiné-Cabo Verde e Pointe Noire-Luanda, utilizando aparelhos «Lockheed» em substituição dos «Wibault». Com o eclodir da II Guerra Mundial em 1939, veio a deitar por terra todos este objectivos, pelo que a actividade desta Companhia limitou-se aos voos entre Lisboa-Tânger-Casablanca, sendo a única companhia aérea de um país neutro autorizada a estabelecer uma ligação aérea com território beligerante.

                                      

                                      

                                                      

Durante os seis anos a "Aero Portuguesa" prestou enormes serviços á causa Aliada, e a inúmeros refugiados da Europa que procuravam em Tânger um local seguro. O filme americano “Casablanca” retrata bem este facto, apesar de não evidenciar esta Companhia mas o movimento de aviões e transporte de refugiados do regime nazi. Nesse período, por vezes e durante alguns meses os vôos tiveram uma cadência diária, chegando em alguns dias a efectuarem-se dois voos de ida e volta e isto dispondo «dum só avião, duma só equipagem e três empregados» que, sob  a dedicada direcção do chefe de escritório, tudo faziam, desde a contabilidade da Companhia até ao serviço de tráfego e Operações.

                                  

                                                                    

                                        

          

                                             

Terminada a II Guerra Mundial, a "Aero Portuguesa" regressou aos seus planos inicias de expansão, que mais uma vez foram travados, desta vez pelo Secretariado da Aeronáutica Civil, cuja objectivo era o da criação duma grande companhia aérea nacional. Foi mantida a exploração da linha contractual aguardando a oportunidade de se integrar no organismo que viesse a ser criado para a concessão e exploração da rede imperial e internacional. A “Aero Portuguesa”  em 1953, veio a ser integradas nessa nova companhia viria a ser criada em 14 de Março de 1945 de seu nome “TAP - Transportes Aéreos Portugueses" através da Ordem de Serviço nº 7 dos “SAC – Secretariado de Aeronáutica Civil”, assinada pelo seu Director Tenente-coronel Humberto Delgado.

Mais uma vez António de Medeiros e Almeida viria a entrar nos 50% de capital social reservados aos privados desta nova Companhia., a quando da transformação em sociedade anónima de responsabilidade em 1953. Até então os TAP eram pertença dos SAC – Secretariado de Aeronáutica Civil ou seja do Estado português.

A “CTA - Companhia de Transportes Aéreos”, (post a ser publicado em Abril) pertença do grupo CUF e fundada em 19 de Julho de 1945, que assegurava as ligações aéreas entre Lisboa e Porto, foi liquidada em 1949 após a suspensão desta ligação em 1947 consequência da criação da “TAP” . Em 19 de Setembro de 1946 a “TAP” inauguraria a ligação Lisboa-Madrid com o seu primeiro avião, um Douglas Dakota C-47A (DC3).

fotos in: Portugal Antigo, Coisas da Aviação em Portugal, Airline Timetable Images, Biblioteca Nacional Digital

11 comentários:

JFS disse...

Belo trabalho. Parabens. Vou seguir o site. José Santos

José Leite disse...

Caro JFS

Grato pelas suas palavras.

Sigo regularmente o seu blogue «Ex-OGMA», com muito interesse do qual já me recorri (com a devida referência) para a elaboração de alguns posts refentes a aeronáutica.

Cumprimentos
José Leite

José Vilhena disse...

Algumas pequenas correções e acrescentos ao seu interessante artigo sobre a Aero Portuguesa:
1.A Aero Portuguesa foi fundada a 22 de Junho de 1934 por escritura pública publicada no Diário de Governo nº 149, 3ª série de 28 de Julho, com um capital social de 160 contos de réis, sede na Rua do Alecrim nº 33 em Lisboa, dirigida pelo Dr. João Júdice de Vasconcelos e com o apoio da Air France que detinha 75% do seu capital. Como tal António de Medeiros e Almeida não era detentor da maioria do capital social, mas sim a Air France.
2.O 1º voo desta companhia realizou-se a 14 de Outubro de 1934 e não a 20 de Outubro de 1934.
3.O Latécoère 28 e o Farman 2200 não pertenciam à frota da Aero Portuguesa mas sim à da Air France, seu acionista maioritário, que com eles efetuava os voos de ligação à América do Sul. A Aero Portuguesa só voou para Tanger e Casablanca, inicialmente com um Fokker Viib-3m (CS-AAM - 1936), seguindo-se o Amiot Toucan AAC 1 (CS-ADA - 1938), dois Wibault-Penoët 282-T-12 (CS-ABX e CS-ADB – 1941), Lockheed 18-07 Lodestar (CS-ADD – 1941) e Douglas C-47A-85-DL (CS-ADB -1950).
4.O seu 1º avião foi um Fokker Viib-3m de matrícula F-ALSA (mais tarde matriculado em Portugal como CS-AAM).
5.Os SAP - Serviços Aéreos Portugueses, Lda. terminaram as suas atividades após a saída do último avião da Lufthansa de Portugal e Espanha em Abril de 1945, tendo a companhia sido dissolvida. Nunca foram integrados nos TAP.
6.António de Medeiros e Almeida só poderá ter sido acionista da TAP em 1953, quando da sua transformação em Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada (SARL), até então os TAP eram pertença dos SAC – Secretariado de Aeronáutica Civil, leia-se Estado Português, e não possuía qualquer capital de privados.
7.Os TAP (Transportes Aéreos portugueses) foram criados a 14 de Março de 1945 através da Ordem de Serviço nº 7 dos SAC – Secretariado de Aeronáutica Civil, assinada pelo seu Director Tenente-coronel Humberto Delgado, e não a 14 de Maio de 1945. Faz hoje precisamente 67 anos…..
A bem da verdade histórica que estou certo concordará, felicito-o desde já por esta sua iniciativa a bem da História da nossa Aviação Comercial.
Com os meus cumprimentos
José Vilhena
Com. Sénior da TAP
www.voaportugal.org

José Leite disse...

Caro José Vilhena

A «bem da verdade histórica», muito agradeço as suas correcções.

Como sabe, ao fazer-se uma investigação histórica «um» diz uma coisa «outro» diz outra e por vezes na compilação saem incorrecções e «asneiras» que só com a ajuda preciosa de leitores como o sr. se poderão corrigir.

Muito agradeço estas «achegas» para que se alcançe a máxima precisão possível

Cumprimentos
José Leite

Anónimo disse...

Caro Senhor:
Excelente trabalho! Portanto no fundo o "mitologico" avião do filme Casablanca seria (se quiséssemos ser historicamente exactos e manter-nos nos bimotores...) o Lodestar da Aero Portuguesa! :9

Bravio pelo seu artigo e pelo blog em geral, de certeza voltarei, assim como a alguns dos links que indica...

Edouard Lefrontier

José Leite disse...

Caro Edouard Lefrontier

Muito grato pelo seu amável comentário

Cumprimentos

José Leite

Duarte Fernandes Pinto disse...

Um artigo muito interessante, Paulo.
Espero que não tenha nada contra, pois vou partilhá-lo no Facebook ...

A Terceira Dimensão - Fotografia Aérea de Portugal

...

José Leite disse...

Caro Duarte Pinto

Grato pelo comentário e esteja á sua vontade para partilhar este artigo.

Cumprimentos

Sergio Palma Brito disse...

Um trabalho espantoso. É exemplo do que nos faz acreditar em Portugal. Tenho preocupações diferentes (e giga vezes mais modestas) e vou difundir e utilizar.
Sergio Palma Brito
PS - O que faço está em http://sergiopalmabrito.blogspot.pt/

José Leite disse...

Caro Sérgio Brito

Fico muito sensibilizado e agradecido pelo seu simpático comentário

Os meus cumprimentos

José Leite

JAB disse...

Bom dia a todos. Estou a escrever uma biografia do Comandante José Cabral que, provindo da aviação naval, serviu na Aero Portuguesa. Posso solicitar a gentileza de qualquer elemento de informação que possa ser útil, comprometendo-me naturalmente a citar a fonte?
Antecipadamente grato

José António Barreiros
joseantoniobarreiros@gmail.com