11 de Novembro de 2011

Sorefame

«…trata-se ao fim e ao cabo, de conferir ao País uma preparação acelerada de conhecimentos de técnica e de tecnologia industriais, por forma a vencermos com sucesso o período transitório de adaptação, consentido pela passagem do neo-mercantilismo existente na Europa ao neo-liberalismo que reinará adentro da zona do Mercado Comum Europeu se, pelo seguimento dos acontecimentos, se verificar a necessidade, a vantagem ou a obrigação de nele participarmos.» - citação do fundador da “Sorefame”, o engenheiro Ângelo Fortes, no 2º Congresso da Industria Portuguesa, a 3 de Junho de 1957, catorze anos após a fundação da empresa e trinta anos antes da adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, hoje União Europeia.

                                    

Com a II Guerra Mundial em pleno curso e com o país a atravessar uma profunda crise e recessão económica, o regime do Dr. Oliveira Salazar decidiu dar um novo impulso de modernização à obsoleta e frágil indústria portuguesa. Foi num clima de desemprego e fome e de uma enorme taxa de analfabetismo que em 1943 se fundou a, então, mais moderna fábrica de metalo-mecânica pesada do país.

                                                                  Amadora nos anos 40 do século XX

                                     

                                                                            Complexo da “Sorefame”

                                      

A “Sorefame - Sociedades Reunidas de Fabricações Metálicas, Lda.” nasceu oficialmente em 23 de Julho de 1943, resultado do agrupamento de várias sociedades nacionais que trabalhavam na concepção e fabrico de equipamentos metalomecânicos, foi instalada na periferia agrícola da Amadora, nos arredores de Lisboa, concentrando e centralizando assim numa única unidade todos os recursos nacionais nesta área industrial. Um dos objectivos desta empresa na sua fase de arranque foi a produção de equipamentos e peças metálicas para a construção de barragens, sendo as obras de Castelo do Bode e Belver algumas das primeiras barragens a incorporar material da empresa, nomeadamente as comportas.

                                                                              “Sorefame”, em 1961

       

Com uma produção orientada essencialmente para o mercado interno, a empresa iniciou as suas exportações em 1951, com o fornecimento das comportas para a barragem de Bin-el-Ouidane, em Marrocos. Não querendo dedicar-se exclusivamente ao fabrico de um único tipo de equipamentos decidiu estrear-se na produção do equipamento das respectivas centrais eléctricas, fabricando e montando turbinas hidráulicas e alternadores de diversos tipos. Ao longo dos anos 50 do século XX, a “Sorefame” continuou a alargar o seu leque de actividades, com a construção de equipamentos para as indústrias química e petrolífera e o fabrico de estruturas para pontes, caldeiras, reservatórios, etc.

                                      

                                                           

                                        

Baseada nos mesmos princípios estratégicos, a “Sorefame”, desenvolveu e estabeleceu outras áreas de negócios. Como corolário do plano de electrificação da rede nacional de caminhos de ferro da CP, surge a oportunidade de uma nova actividade industrial, especializada em material circulante ferroviário. A área de negócio do «Material Circulante» para caminhos de ferro teve início em 1952, com base numa estratégia de produto e num plano de desenvolvimento da actividade bem definidos.

                                                                                    Anúncio em 1954

                                              

         

                                                                                  Anúncio em 1956

        

                                     

Foi o principal construtor ferroviário em Portugal, pois das suas instalações saíram locomotivas e automotoras térmicas e eléctricas, assim como carruagens, furgões e vagões. Forneceu essencialmente os “Caminhos de Ferro Portugueses” , assim como outros operadores como “Sociedade Estoril”, “Metropolitano de Lisboa” e “Metro do Porto”, além de outros operadores ferroviários das antigas colónias portuguesas em África e redes de outros países.

                                                               Locomotiva eléctrica “Sorefame”, de 1962             

                                         

                Sorefame/GEC 3200 da “Sociedade Estoril”                    Sorefame/GEC 3100, da “Sociedade Estoril”

         

Para mais informação da “Socidade Estoril” consultar o post : Estações e Comboios na Linha do Estoril

                                               Unidade tripla eléctrica “Budd”, da linha de Sintra, em 1957

                                     

Muito do material circulante foi concebido e construído por trabalhadores portugueses, mediante muitas vezes sob licença dos maiores construtores mundiais, como “Alstom”, “Bombardier”, “Siemens”, “Brissoneau & Lotz”, “English Electric”, entre muitos outros.

                                                  Locomotiva diesel “Brissoneau & Lotz” série 1200, de 1961

                                       

                                     Anúncio em 1958 …                                                             … e em 1962

        

Alarga a sua a sua área de acção para Angola, na cidade do Lobito. A “Sorefame de Angola” ,no Lobito, além de oficinas de metalomecânica pesada, tinha como actividade mais permanente a reparação e construção naval semi-ligeira como: rebocadores, arrastões, bacalhoeiros, etc. Durante a guerra civil a “Sorefame de Angola” trabalhou para o MPLA no estaleiro do Lobito, construindo carros blindados.

                 Estaleiros Navais da “Sorefame Angola”, no Lobito a quando da visita do Governador Geral de Angola

         

                                                Exemplos de embarcações construídas pelos estaleiros

                        Rebocador «Miranda Guedes», de 1968                   Navio «Goa» para pesquisas de pescas, de 1967

         

Inicialmente designados por “Sorefame de Angola”, mais tarde, com as nacionalizações, passaram a chamar-se “Estalnave”. Em Fevereiro de 1976 foi criada a “Lobinave”, sociedade por quotas detidas pelo estado através da “Estalnave” (66%) e o restante pela “Lisnave Internacional”, a qual começou a funcionar em 1997.

Na década de 60 dp século XX, a “Sorefame”, chegou a tentar fazer uma incursão no caravanismo, que estava despontando e em franca expansão, pelo chegou a fabricar um modelo de roulotte (ou caravana).

                                                                               Roulotte (ou caravana)

                                        

Durante a década de 60, a empresa participa na construção da primeira travessia lisboeta sobre o Tejo, a Ponte Salazar e fica encarregue do fabrico das automotoras do novo Metropolitano de Lisboa, do qual recebe então as primeiras encomendas. Com base na licença da “Budd Company”, a “Sorefame” inicia a produção dos primeiros comboios feitos em caixa de aço inoxidável canelado e soldado por electrólise segundo a patente original dos norte-americanos. No sector hídrico, participa na construção de barragens no Irão, Sudão e Angola. Em 1969, a “Sorefame” atinge o seu auge nesta área ao fazer parte do projecto da Barragem de Cahora Bassa, em Moçambique, que se concluiu em 1974.

                                 Primeiras composições do Metropolitano de Lisboa, as “ML 7”, modelo de 1959

                                 

         

Para mais informações acerca da história do “Metropolitano de Lisboa” consultar o artigo: Metropolitano de Lisboa (1)

                                                                  Fabrico e montagem das carruagens “Budd”

         

        Sorefame.23  Sorefame.24

                                                                                  Carruagem “Budd”

                                 

Para mais história e pormenores deste tipo de carruagem “Budd” consultar artigo intitulado: Construção da Carruagem Budd - “Flecha de Prata”

Durante a década de 70 do século XX, a empresa apresentava-se tecnologicamente muito avançada, dispondo de moderno centro informático de cálculo, um vasto gabinete de estudos e projectos de engenharia, laboratórios de investigação, simulação em modelo, certificação de processos e pessoal; deixa, contudo, de poder competir com outras empresas internacionais, principalmente devido ao clima de instabilidade política vivida após a revolução do25 de Abril 1974.

Na década de 80 do século XX, fabrica 58 carruagens semelhantes ao modelo VTU-78 da série Corail da operadora “Société Nationale des Chemins de Fer Français”, mas utilizando caixas em aço canelado, devido ao facto de já ter fabricado material circulante com este tipo de construção; estas novas carruagens entraram ao serviço em 1987, nos comboios Alfa da companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses

 

 

A “Sorefame” entra na década de 90 do século XX, sob os auspícios da criação do Grupo SENETE (Sistemas de Energia, Transportes e Equipamentos). Este grupo agrega, além da “Sorefame”, a privada “Mague” e a multinacional Asea & Brown Boveri (ABB), a qual passa a deter posição dominante no grupo (40%). Daqui resulta a separação da área da hidromecânica em relação à restante estrutura produtiva da empresa. A Sorefame passa a dedicar-se em exclusivo à produção de material circulante para os caminhos-de-ferro e em 1994 passa na totalidade para as mãos da ABB.

                Vagões tremonha para transporte de cereais                  Locomotivas “Alstom” para a Rhodesia, em 1972

        

fotos in: Hemeroteca Digital, Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Instituto de Investigação Científica Tropical

Em 1996, através de uma fusão com a alemã “Daimler-Benz”, é formado o grupo “Ad Tranz”. É então pela mão desta nova conjuntura empresarial que se dá a introdução, em 1997, da robotização e corte e soldadura por laser, no meio de profundas reestruturações e reajustes necessários de modo a preparar a “Sorefame” para desafios tecnológicos à altura de novos tempos. É assim, dotada de uma nova mentalidade e infra-estrutura que a “Sorefame” fabrica as novas unidades eléctricas para a Linha de Sintra e executa a montagem de novas locomotivas “Siemens” e dos comboios da “Alstom” para a nova travessia ferroviária sobre a Ponte 25 de Abril. É também parte integrante do consócio “Fiat-Pendoluso” que construiu os comboios pendulares fornecidos pela “Fiat Ferroviaria” à CP.

           Linha de fabrico equipada com robots de soldadura por resistência e um modelo RobCAD de programação

        

                       Comboio “Alstom” para a Fertagus                                          Comboio “Fiat” Pendular          

        

Em 2000, a “ABB” vende as participações que lhe restam da ex-“Sorefame”, ficando a “Daimler-Benz” dona de toda a empresa, muito embora essa situação fosse uma mera transição para o que se iria passar um ano depois. Em 2001, a multinacional canadiana “Bombardier” adquire a totalidade do grupo “Ad Tranz” e consigo as instalações da Amadora. Com o fabrico das novas composições para o “Metro do Porto” e de novas unidades eléctricas para a CP, utilizadas nos suburbanos do Grande Porto, a empresa que resta da “Sorefame” deu o seu último contributo no que toca a contratos e actividades ligadas aos caminhos-de-ferro.

                                                                                      Metro do Porto

                                      

                                           Unidade Múltipla Eléctrica para CP, plataforma CP 2000, em 2002

                                       

A “Sorefame”, ou melhor, a ex-“Sorefame” é extinta em 2004, e encerra ao fim de 61 anos de existência …

Comecei com uma citação de 1957 e termino com outra mais actual:

«… Para o investidor financeiro, a questão estratégica é a comparação de remunerações para o seu capital. Para o empresário, a questão estratégica é a comparação de competitividade. … A localização ou a nacionalidade dos centros de decisão empresariais não dependem da imposição de restrições aos movimentos de capitais ou da promessa que as posições accionistas não serão transaccionadas. O que determina onde estão os centros de decisão é a posse ou o domínio de uma competência: quem satisfizer este critério será “dono da sua casa”, onde quer que esteja.» citação de José Manuel de Mello, decano dos empresários portugueses (Ideias e Negócios, Dezembro de 2002).

3 comentários:

RedBaron disse...

Olá,
Meu pai trabalhou na Amadora e no Lobito. Aqui fez-se na altura o navio "Cabang". Bons tempos.
Vou-lhe mostrar isto.
Abraço,
Santos Mattos

Iza disse...

Olá, boa noite
O meu paizinho, também trabalhou na Sorefame, desde que veio para a Amadora, por volta de 1961, até à proposta de reforma antecipada, aos 59 anos, por volta de 1989...
Na altura era Técnico de Qualidade e muito querido por todos. Infelizmente já não o tenho comigo...
Cumprimentos,
Isabel Madeira.

Pedro Ávila disse...

Bom dia,

O meu avô também trabalhou na Sorefame. Recordo-me das suas histórias, em especial do seu trabalho na barragem de Cabora Bassa e na Rodhesia do Sul. O seu nome é Jerónimo d'Ávila. Também se reformou antecipadamente no final dos anos 80. Já nos deixou infelizmente.

Cumprimentos.
Pedro Ávila