12 de julho de 2011

Livraria Buchholz

A “Livraria Buchholz”, foi fundada em 1943 pelo livreiro alemão, Karl Buchholz, que deixou Berlim depois da sua galeria de arte e livraria terem sido destruídas pelos bombardeamentos. O alemão que nasceu em Götingen, na Alemanha, em 1901, foi um dos pais da globalização das livrarias. Aos 24 anos, com pouco dinheiro e muita determinação, abriu uma pequena livraria em Berlim, que seria a primeira de 12 espalhadas pela Europa e Américas. Em 1940, Buchholz dá o primeiro passo para a globalização com uma loja em Bucareste. Mas em 1943, quando Berlim está sob bombardeamento da II Guerra Mundial, Buchholz percebe que tem de fugir.

A actividade de Buchholz era incompatível com o regime de Berlim, nomeadamente a venda de autores considerados proscritos, como Thomas Mann. No entanto, a relação de Buchholz com o regime era algo dúbia pois tanto compactuava em manobras de propaganda alemã como salvava da fogueira obras de Pablo Picasso e Georges Braque, condenadas pela fúria nazi.  Escolhe Portugal e com a ajuda do amigo Lehrfeld, que já vivia em Lisboa, inaugura a “Livraria Buchholz” na Avenida da Liberdade.

“Livraria Buchholz” , na Avenida da Liberdade

Num país cinzento como Portugal, foi uma novidade. Ali se encontravam os melhores livros estrangeiros. Mas a estada deste alemão em Lisboa foi curta. Nos anos 50 muda-se para a Colômbia, onde abre outra livraria. Sempre com a mesma imagem de marca, ao estilo das livrarias alemãs. Recantos com sofás, que convidam à leitura, madeira nas escadas, chão e nas estantes para tornar o espaço acolhedor e agradável.

O interior foi projectado pelo próprio livreiro ao estilo das livrarias da sua terra natal. O espaço estende-se por três andares unidos por uma escada de caracol, com recantos e sofás que proporcionam uma intimidade dos leitores com os livros. A madeira das escadas, chão e estantes torna o espaço acolhedor e agradável. Durante os anos 60, a tertúlia artística lisboeta dos quais se destacam, Escada, Noronha da Costa, Eduardo Nery e Malangatana - passou pela cave da Buchholz, que funcionou como galeria até 1974.

 

A selecção dos títulos era vasta e incluía várias áreas: artes, ciência, humanidades, literatura portuguesa e estrangeira, livros técnicos e infantis, na cave funciona uma secção de música clássica e etnográfica. Apesar de não ser especializada em nenhuma área, a secção dedicada à ciência política é frequentada por muitos políticos da nossa praça. Sá Carneiro, José Cardoso Pires, Mário Soares, António Lobo Antunes ou Vasco Graça Moura eram clientes habituais desta livraria.

1944

     

Ao fim de 65 anos, a “Livraria Buchholz”  encerra as portas a 23 de Abril de 2009,  depois de ter sido declarada insolvente por sentença judicial de 22 de Janeiro desse ano. Mas o espírito cultural que a caracterizou foi recuperado, com a intervenção da “Fundação Agostinho Fernandes” para a nova loja que se instalou no mesmo espaço perto do Marquês de Pombal, na Rua Duque de Palmela em Lisboa. A “Livraria Buchholz”, entraria na sua “quarta geração”, já que começou em 1943 na Avenida da Liberdade, em 1965 passou para Rua Duque de Palmela.

Exterior e interiores da “Livraria Buchholz” na Rua Duque de Palmela               

 

                               

 

E em 2008 ganhou uma irmã gémea no Chiado, ocupando um espaço que outrora tinha servido de cavalariça e era na altura  um armazém da “Livraria Sá da Costa”. Este novo espaço viria a fechar pouco tempo depois sendo os seus serviços transferidos para a “Livraria Sá da Costa’

                                                                           “Livraria Buchholz” , no Chiado

 

Reaberta em 8 de Abril de 2010 pela Coimbra Editores, a nova proprietária do espaço, como uma livraria tipo generalista  pretende dar continuidade ao polo cultural que a Buchholz que foi no passado, mantendo-se como um local de encontro cultural. Passou a acolher eventos especiais como lançamentos de livros, sessões de leitura, e o "Domingo Especial" que são os saldos anuais da livraria, uma vez por ano, no último domingo de Novembro.

As empregadas também já não têm uma herança genética estrangeira. A conhecida Katharina Braun, considerada por alguns como “antipatiquíssima” ou “a nazi da Buchholz”, filha de livreiros que Karl Buchholz trouxe para Lisboa, há muito que se reformou e só vai continuar na memória da comunidade de fãs fiéis. Já não existe nenhuma relação entre a nova ‘Livraria Buchholz’ com a família originária que chegou a Portugal em 1943.

“Livraria Buchholz” , na Rua Duque de Palmela

            

 fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Celivrarias

8 comentários:

Carlos Henriques disse...

Olá boa tarde, mais um excelente artigo. Aproveito para informar que Leopoldo Lehrfeld, foi remador, treinador e dirigente. Foi um dos melhores treinadores portugueses de remo, esteve presente no Jogos Olímpicos, Campeonato da Europa. Presidiu ao Clube Naval de Lisboa e à Federação Portuguesa de remo.
Um abraço,

Carlos Henriques

JORGE FIGUEIREDO SANTOS disse...

Gostei de conhecer esta extraordinária história. Sugiro a correcção da data da reabertura, para 8 de Abril de 2010, porque apesar de se intuir no contexto, pode ainda provocar algum equívoco.

José Leite disse...

Caro Carlos Henriques

Mais uma vez muito agradeço a informação que acrescenta. Esse tipo de informação especializada realmente só um expert na matéria que e o seu caso.

Mais uma vez grato

Um abraço

José Leite

José Leite disse...

Caro Jorge Figueiredo Santos

Muito agradeço a sua correcção. Costumo rever o texto do post antes de o editar mas hoje ... falhei. Realmente reabrir em 1910 .....

Muito obrigado pela sua chamada de atenção que só enriquece a precisão da informação.

Cumprimentos

José Leite

Anónimo disse...

Gostaria de saber se estão confirmadas as raízes judaicas de Karl Buchholz. Acabo de ler um artigo da Art News onde essa ascendência é negada. Aproveito para lhe agradecer pelo texto que nos disponibilizou.

Cumprimentos,
João Pinto Coelho

Anónimo disse...

Tenho a maior das saudades do espaço da duque de Palmela.Era o meu passeio obrigatório aos sábados de manhã à melhor livraria de Lisboa da época, na minha opinião. Tinha oferta portuguesa e estrangeira que mais nenhuma tinha. Lembro-me de ver uma única vez o velho Buchholz por cá, dando sugestões onde colocar os quadros! A dona Katharina era chata mas sabia do assunto. E havia a Rosa Maria na zona das artes. Obrigado por me lembrar o tempo em que as livrarias ainda não eram formatadas...

jose luis covita disse...

Excelente artigo, excelentes imagens

Waleska Buchholz disse...

Adorei conhecer um pouco dessas historia, pois sou de família Buchholz e gostaria de saber mais sobre a origem da mesma. Fiquei encantada pela livraria. Com certeza terei oportunidade de conhecê-la, em breve.